segunda-feira, 11 de setembro de 2017

CRÔNICA: DA CENSURA DA ARTE

 A arte pode e deve ser analisada a partir de 4 caminhos que poderíamos definir em grego por estese (sensação), pathos (emoção), logos (razão) e ethos (ideologia, ética, moral). A arte é, fundamentalmente, estese, porque é forma, é, parafraseando Hegel, atingir a verdade através dos sentidos. A obra de arte deve, portanto, partir e retornar ao seu valor estético.
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Desta maneira, as artes clássicas ou apolíneas, no dizer de Nietzsche, buscam a sensação de beleza, isto é, harmonia e equilíbrio entre as partes. Já as artes românticas ou dionisíacas buscam o sublime, aquela sensação de grandiosidade, de ser maior que a vida, de alcançar o infinito.
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A arte “pós-moderna” (uso este termo com muita cautela e principalmente como paralelo ao vocábulo pré-modernismo) do nosso mundo “líquido”, como define Zygmunt Bauman, é a sensação de choque, uma quebra, um estranhamento como afirmava Bertolt Brecht em relação ao seu teatro épico que exigia uma participação ativa e crítica da parte do receptor.
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O pathos é como a forma estética nos faz sentir. Como ela nos deixa: tristes, alegres, amedrontados, raivosos, nos causa desejo ou nojo? O logos, por sua vez, é, como o seu derivante indica, a parte lógica, as ligações racionais entre as partes, as referências socioculturais, as ideias entranhadas a construção estilística (lembrar sempre que o latim “arte” equivale ao grego “técnica”).
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As obras sublimes produzem, em tese, os mais fortes pathos, a visão do grandioso deixa-nos prostrados na admiração, no maravilhamento. Já as artes do belo priorizam o logos, a força da construção.
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As produções que se importam com o choque são extremamente dependentes da capacidade racional dos receptores. Ora, a sua técnica surge a partir da intertextualidade, das releituras e da desconstrução de modelos socioculturais preestabelecidos. Daí o choque, os elementos clássicos e tradicionais reaparecem em novo paradigma o que nos tira de nossa zona de conforto. Por isso, o observador casual da arte não consegue identificar este tipo de produto como arte propriamente dita.
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Desta maneira, apelando para a capacidade do espectador de reconstruir logicamente todos os referenciais da obra a fim de interpretá-la, a arte “pós-moderna” é versátil em causar aversão, irritação e emoções análogas. Quando estes pathos são intencionais, logo verifica-se que o autor atingiu ao seu objetivo, portanto foi esteticamente eficaz.
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Por fim, o ethos parece ser um elemento extra-artístico. Tomemos dois exemplos do cinema: O nascimento de uma nação (1915), de D. W. Griffith; e O triunfo da vontade (1935), de Leni Riefenstahl são duas obras-primas máximas da “sétima arte”, tendo criado técnicas e estilos de filmagem até hoje utilizadas e revisitadas. Porém, o primeiro filme praticamente ressuscitou a Ku Klux Klan, sendo do mesmo ano da fundação do segundo movimento da KKK. A película alemã, por sua vez, idealizava e heroicizava o nazismo.
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Duas grandes obras em técnica, em estética, emocionantes, mas, eticamente, filosoficamente, defensoras do racismo, da intolerância e do autoritarismo fascista. O ethos importa sim, mas não pode prevalecer sobre o estético, pois este elemento é o ponto de partida e de chegada de toda construção cultural.
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A arte que não consegue se libertar além da forma é o que chamamos de “arte pela arte”. A arte panfletária é aquela que tenta se segurar apenas no valor ético. A grandeza, no entanto, está em ser emocionalmente sublime; racionalmente belo; a forma eficientemente perfeita; e filosoficamente moralizante e edificante.
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Moralizante não significa moralista, as fábulas de Esopo ou D. Quixote, de Cervantes, são moralizantes, não moralistas. Por isso, sempre me preocupa quando se usam valores específicos de um grupo social são usados para julgar esteticamente uma obra ou uma exposição inteira.
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Assim como os nazistas criaram uma estética panfletária para apoiar sua estrutura de poder, eles também condenaram centenas de obras, praticamente todo os movimentos de vanguarda como degenerados e pervertidos. O argumento da “pornografia”, “zoofilia” etc., não se sustentam muito quando se coloca, em diacronia, toda a produção humana, seja greco-romana, seja indiana entre outras.
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Quanto ao argumento da “pedofilia”, se verdadeiro, seria crime (embora este termo não seja tipificado, mas o abuso sexual infantil sim) e apenas a obra individualmente deveria ser retirada da exposição se comprovada a prática de abuso – ou promoção do abuso –.
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Não sou fã da chamada arte (no meu caso, literatura) “pós-moderna”, o limite emotivo destas produções é, ao meu ver, muito circunscrito ao choque, enquanto sua construção artística, ao mais das vezes, depende menos da habilidade e do aprimoramento técnico do que da criatividade de reler, rever, desconstruir e reconstruir os antigos paradigmas. Porém, não posso coadunar com censura político-religiosa.
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O julgamento estético deve ser estético, começar e terminar nele. Pathos, logos e ethos são elementos que somam e dão profundidade e alcance humano a uma forma. Sem emoção, cultura e ética, a obra se torna rasa e vazia, mas sem estética, o conteúdo é ineficiente, não causa emoção, não transmite saber, nem edifica.
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Só em tiranias totalitárias a perseguição à arte acontece, e, lutar contra estes movimentos inquisitoriais é combater em prol do direito à liberdade, é dever de todo artista e cidadão consciente, aquele que tem dentro de si este tripé que tantas vezes já mencionei, mas que nos é transmitido através dos sentidos. Aceitar que uma exposição seja fechada por motivos religiosos é, por si só, um atentado à sensibilidade, à inteligência e à cidadania de um povo, nosso povo.
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11-12/09/2017