domingo, 22 de maio de 2016

ILUMINADO

"Sidarta, não sofrerás neste mundo"!
E o pai cumpriu sua promessa
E Sidarta fartou-se de manjares
De licores
E das coxas de sua prima.

Mas a fome e a sede que Sidarta sentia
Não poderia ser amainada por qualquer fruto, vinho ou carne
De princesa.
Era um insaciado insaciável.

Então Sidarta fez o que todos aqueles
Que têm desejos proibidos devem fazer:
Desobedecer
O pai.

E Sidarta foi às ruas e viu
A fome, a doença e a morte.
Tocado por seus olhos,
Abandonou tudo,
Jejuou,
Molestou o corpo até que seu umbigo,
Marca de nascido de mulher,
Tocasse a sua coluna ereta,
Como se seu sofrimento purificasse-o
De todo o gozo da juventude.

Mas o sofrimento não estrangulou
Os seus desejos
Não entendia que gozar não era o pecado
E que entender era a sua fome.

Viu, um dia, Sidarta, um menino que
Ao cortar a grama
Matou um grilo e chorou pela vida.

E debaixo da figueira Sidarta entendeu:
O seu pai padecia pelo seu sofrimento,
Por isso o trancafiou na prisão gozosa;
A visão do mundo encheu-lhe de dor,
Por isso se trancafiou na prisão penitente;
O menino compadeceu-se por outra vida,
Por isso foi libertado da prisão da culpa.

O sofrimento une o destino de tudo que vive,
Pois tudo o que vive deseja
O que não possui.
Olhai o hoje e amai teu irmão de dor.

Sidarta
Sob a figueira
Finalmente abriu os olhos,
Estava desperto.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

ESPELHO

Eu sou esta imagem presa
À parede, pois o espelho
Já a mim negligenciou.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

INTELIGENCIADOR

o poeta é um estivador
encarregado das palavras por todos os lados
cada uma é sua cruz
tem cada peso que, a depender da hora,
equilibra-se com nova medida

o poeta é um estivador
carregado pelas palavras para todos os lados
mas não como diagrama:
                           projeto burguês;
tampouco como mapa:
                           trajeto aventureiro;
mas pelo cadencial pulsar dos seus ouvidos
        pelo diferencial do seu olhar do comum olhar

o poeta é um estivador
emparedado nas palavras em todos os lados
fazem-no ponte suspensa
                 cordame solto
para que possam se entender
As Pessoas
                                   O Mundo

terça-feira, 10 de maio de 2016

MASCARAR

Ainda que o assassinato
Esteja prescrito em todos os códigos de leis;
Ainda que todo o rito processual
Seja seguido em cada etapa sua;
Ainda que me condenem
Sendo eu completamente inocente:
A legalidade do ato não pode 
Mascarar a injustiça da sentença.

Ainda que inventem crime
Para me punir pelos atos cotidianos;
Ainda que me tornem réu
Retroagindo a nova lei inventada;
Ainda que eu vá para a tribuna
Pela suposição do que cometerei:
A ilegalidade do ato não pode
Mascarar a injustiça da sentença.

Ainda que toda a camarilha
Prepare seus achaques contra mim;
Ainda que leiloe meu corpo, cargo, vaga,
Jamais comprará a minha alma;
Ainda que me jogue à cova leonina
Pelo ódio à minha pouca vitória:
Não pode o seu mórbido luto
Mascarar a força com que luto.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

TEMPO E TRONO

Temer, tu tomas mas não
Pegas, sentas, mas não ficas,
Tu nomeias e tu indicas,
Tens toda a negociação,
Mas o trono te pinicas.

Temer, tu trais, mas tu cais
Pois a pena do traíra
É a própria faca que traz
- Corta a si quem fura atrás -,
Seu riso vira só ira.

Temer, tu tens tempo curto
Quem quer que ganhe do furto
Sente a sua hora chegada:
Bruto, vê vulto, tem surto,
Teme a fiel badalada.

06/05/2016

terça-feira, 3 de maio de 2016

COMO VAI?

Quis dizer que estava misérrima, lúgubre, paupérrima de elã e libido. Mas como sem palavras? Dizer: “muito triste”, é condescendência, o que é muito triste, o quanto é muito triste? Com o quê comparar, com quem comparar: consigo mesma ontem, anteontem?; com a colega de serviço e sofrimento?

“Infeliz”? É o mesmo que dizer: “Viva”. Feliz é a busca nunca alcançada da vida. É como que quisesse aparecer. Só diz que está infeliz quem tem preguiça de continuar: “Vou acabar o casamento”, disse o noivo, “estou infeliz”.

É a desculpa vaga para quem se cansa de viver e não tem coragem moral da alternativa. Infelicidade é respirar.

Para comunicar são tão poucas as palavras necessárias que podemos contar-lhes as sílabas e mal chegamos as centenas.

Mas a expressão exige mais, muito mais, para encontrar a radicalidade íntima da alma ou para analisar a complexidade intrínseca do universo. Só as palavras, todas as que existem, ainda não bastam.

E que fazer ela, que não tem nenhuma? Ou tão poucas quanto a negatividade, incapaz de conjurar antônimos ou de enfatizar com jogos sinonímicos?

Como expressar esta dor, este sofrimento, como manipulá-lo em fonemas pronunciáveis? O que pode fazer?, sofrem menos os que não podem dizer a sua própria aflição, ou são obrigados a engoli-la por completo porque não a transformam em consciência?

Então estes sofreriam em exponencial? Sofrem porque vivem; sofrem porque não podem ejacular, em palavras, o sofrimento; sofrem porque a represa aperta e pesa; e sofrem porque não sabem que podem se libertar do sofrer e continuam consigo sem jamais sublimá-lo.

Pois a alma é a narrativa do que vivemos e o espírito é o comentário que fazemos do que percebemos do mundo.

Ela como que olha dentro de si mesma procurando se tem alma ou espírito, mas como rememorar os detalhes de si, daquilo que tem de mais profundo e secreto?; como compreender os mistérios da realidade, entender os intrincados mecanismos empíricos?; quando não há vocábulos corretos ou aproximativos que lhos revelem?

Qual o tamanho de sua alma?

Qual o alcance de seu espírito?

Se toda a sua autoconsciência e a sua consciência do mundo, se todo o seu Nada, não têm escopo, se o corpo do ser são só palavras?

Sem palavras, como traduzir o seu infinito para o ínfimo do seu Eu?

Era como tentar traduzir a divindade absoluta em termos humanos e mal alcançar analogias biológicas.

Era como acreditar que o ser supremo tivesse realmente mãos, barba e pênis, porque era incapaz de configurar em palavras o absoluto, o supremo, estes abstratos, e focalizasse sempre na imagem do macho-pai, do macho-marido, sempre no “o”, no “o”, sem entender realmente, porque suas palavras são poucas para realizar o muito, que todas as palavras são poucas para contemplar o todo.

E tão vasto era o seu dentro, tão grande e potente era sua paixão.

Mas, para ela, paixão era o beijo cênico, o sexo mal filmado, de um açucarado casal cissexual sem sal, representados por atores canastrões em uma telenovela mal escrita, cujo enredo enfadonho e maçante é o mesmo desde sempre, desde que ela era pequena e via novelas na tevê com sua mãe, e sempre será, para amordaçar e entorpecer a sua mente, numa emissora midiática manipuladora e canalha que controla as finanças, a política, os interesses, os corações desse subcontinente subdesenvolvido.

Por isso não entende quanta paixão tem em si, quanta flama resplandescente fulgura-lhe internamente, que lhe corrói como pirose, que lhe angustia, que lhe é uma cintilação vicejante.

Nesse sentido, quando a questão mais importante que um ente pode fazer a um ser para que este encare a momentaneidade de sua realidade objetiva e a totalidade de sua subjetividade afetiva; na hora mais certa que este mesmo ser precisava encarar decisivamente a problemática da sua existência; exatamente quando mais se precisava de empatia, de compreensão alheia, de aproximação amorosa – pois o momento oportuno é a única chance, a única sorte, o único milagre que há no Universo material em que a entropia governa as causas e efeitos –; tudo que ela pôde fazer foi contorcer um sorriso mentiroso com o corpo todo, olhar com um olho o chão e com o outro procurar esconder-se no céu, e responder tão somente:


– “Eu vou indo”.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ORAÇÃO DE 1º DE MAIO

Meu São José Operário
Proteja o meu ganha-pão.
Querem furtar o salário
13, as férias. Terciário
Fazer-me pra demissão.

Escutai minha oração,
Meu São José Operário.
Da mãe a amamentação
E das domésticas vão 
Retirar o necessário.

Meu Santo trabalhador
Valei-me, força do pobre!
O meu suor, meu amor
É cada calo no ardor
Forjado por pouco cobre.

Com teu martelo nos cobre
- Que sabes bem esta dor -
Pra que em medo não me dobre
Em frente do patrão, do nobre;
Nos una: irmão e soror.