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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

DESASSOMBRADO - Parte 5 - Final


1: Como não, excelência? Se toda a questão aqui é que meu cliente perdera o CPF, logo, o título de propriedade de si mesmo depois de um processo burocrático que se dá início com a emissão do atestado de óbito! É o Estado que comprova que nascemos, com o registro, assim como antes, a Igreja comprovava com a documentação batismal. O Estado prova que estamos vivos com o CPF e que somos quem somos. Lembremos, meritíssimo, que não é o RG que parece conosco, mas nós é que somos idênticos a ele.
2: Mas o Estado já emitiu o atestado que seu cliente morrera há mais de trinta anos!
1: No entanto, o que meu cliente exige é que se declare, que se reconheça, não que ele morreu, muito menos que nasceu, mas a sua qualidade de pós-vivo!
2: Isto é um absurdo, sr. advogado!
1: Como absurdo, excelência?, meu cliente está pós-vivo bem na sua frente!
2: A bem da verdade, eu “o” vejo, ainda que translúcido.
1: E como das provas de sua ligação, por assim dizer, “telúrica” com o seu patrimônio, fez-se mister transportarmos alguns tijolos do porão onde atentou contra a sua propriedade primeira.
2: Realmente elucidativo neste mister.
1: O mister maior, no entanto, excelentíssimo míster (perdoe-me o chiste) [ambos sorriem satisfeitos do agradável gracejo], é, esta face atormentada aqui, carregada por algumas “células” de sua grande angústia, não sensibiliza v. ex. para o seu caso? Veja tanto sofrimento (eterno, eterno devo relembrar sempre, porquanto o imóvel esteja “de-pé”) sem fim numa casa abandonada (e para sempre abandonada, não me escuso em dizer, porquanto o meu cliente esteja “aqui”)? Há uma correlação inexorável presentificada. Ou, perdoe-me o tom de ultimato, magistrado, mas, ou bem se reconhece o meu cliente como o pós-vivo-consciência de uma propriedade privada física, ou demole-se a casa e “mata-se” a ambos.
2: É muito, mas muito mesmo no que pensar mesmo. Antes que eu decida, porém, o seu cliente gostaria de se manifestar ao juízo sobre o seu caso?
3: AaaaaaaaaAAAAAAaaaaaaAAAAAAAaaaaH!!!!
1: Deveras eloquente, deveras!
2: O sr. me deixa numa encruzilhada: se eu indefiro a sua pedida, nego ao seu cliente o direito à sua propriedade privada; se defiro, concedo a uma casa o direito a ser proprietária de si mesma, portanto um indivíduo. De qualquer sorte, estarei fragmentando os alicerces da nossa sociedade que é a relação contratual entre os corpos. O que mais me assusta é que esta sua doutora em linguística sobrenatural tenha criado o direito fantasmagórico!
3: AaaaaaaaaAAAAAAaaaaaaAAAAAAAaaaaH!!!!

DESASSOMBRADO - Parte 4


1: Página 37: “O que é um indivíduo? A sua definição é daquele que tem a propriedade de si mesmo. Mas como pode um corpo possuir a si mesmo? É logicamente impróprio, assim como, uma casa não pode possuir a si mesma. Quem tem a propriedade do corpo é a alma, este duplo de linguagem do corpo.
A alma é as memórias. Ela que dá forma à consciência: só se pode falar de si naquilo que se lembra de si. E o que são as memórias? Sensações, emoções, sentimentos – tudo aquilo que agrupamos como experiências de afeto com o mundo – que se conectam em forma de redes neurais.” Aqui, novamente, uma explicação breve de como se dá a formação destas redes de processos sinápticos. E vamos para a página 38, três últimos parágrafos do texto: “As cicatrizes, as rugas, as manchas e sinais do corpo, cada estria, cada dor crônica na nossa biologia são mementos, ecos impregnados de nossas experiências. Assim como a casa tem alas, paredes, cozinha, banheiros, biblioteca, sala de estar; o corpo humano tem braços, ossos, estômago, intestino, cérebro, coração. Cada tijolo numa casa assombrada assemelha-se a cada célula de nosso organismo. Portanto, a nossa matéria é a nossa primeira casa assombrada.
Da mesma forma, o planeta inteiro é uma mansão assombrada, a coletividade humana é a consciência geral de Gaia!
Desassombrar um corpo é matá-lo. Separar uma alma de sua casa é matá-la. Uma casa desassombrada é sem vida: ninguém lá sofreu, mas também ninguém lá gozou! Se um indivíduo é proprietário de si mesmo, de seu próprio corpo, quem mais seria o verdadeiro proprietário de uma casa senão as suas assombrações?”
2: [Segurando uma lágrima no olho esquerdo.] E onde o senhor quer chegar com isso?
1: Separar o meu cliente da casa seria matá-la.
2: Uma casa não é um ser vivo para morrer, sr. advogado.
1: Data vênia, excelência, uma casa assombrada É uma casa viva. Ela tem memória, tem consciência. Da mesma forma, uma pessoa desassombrada é um cadáver.
2: A sua lógica é venenosa. O senhor está fazendo associações impróprias.
1: Impróprias não, excelência. Data máxima vênia, peticiono a v. ex. que considere o meu cliente como proprietário da residência que assombra da mesma forma que se considera uma Pessoa Física proprietária de si mesma.
2: Isso seria um absurdo! Neste caso, eu garantiria a uma casa os direitos da “pessoa humana”.
1: Mas, excelência, não é justamente esta a natureza da petição e o argumento central do artigo da doutora: o ser humano, como proprietário de si mesmo, nada mais é do que uma casa habitada por uma assombração. Negar ao meu cliente o corpo que ora possui, mas que não foi lhe dado por Deus, é matá-lo uma segunda vez! V. Ex. não crê em Deus, meritíssimo?
2: Sr. advogado, isso é desacato!
1: Mas é um ponto válido na minha argumentação.
2: De fato, como todo cidadão de bem, creio em Deus, mas o que isso vem ao caso?
1: Ora, todo filho de Deus tem como a sua primeira propriedade natural no seu corpo. Mas não somos apenas corpo. A alma sobrevive à experiência física e, sem poder dirigir-se a um final metafísico adequado, aqui ficou presa. Mas, é assim porque Deus quer. Preso ao novo corpo do qual é inseparável. Deus se encarregou de prender meu cliente à residência a qual possui “laço de sangue”, assim como prendeu a mim e ao senhor, meritíssimo, a esta “residência” a que somos ligados por herança familiar.
2: Ainda assim, mesmo que verossímil a argumentação, o corpo que Deus nos dá é um direito natural inalienável, não precisamos de um documento emitido pelo Estado para atestar a posse deste bem; ao contrário de um direito natural à propriedade privada que é constituída por homens, logo alienável sobre certas circunstâncias (como a compra e venda). Só a burocracia estatal pode realizar, no molde formal, as relações corporais entre pessoas físicas e jurídicas. Repito, não precisamos de documentos para provar que possuímos o nosso corpo!


DESASSOMBRADO - Parte 3


2: Ainda que seja, é O Estado: a fonte das leis e dos documentos. O deus jurídico! O espírito santo do direito!
1: E o que o Estado pretende fazer com o imóvel do meu cliente? Ninguém lá vive, ninguém quer lá viver. Deixe para os mortos, então!
2: Os mortos? Qual outro pleiteia a propriedade além de seu cliente?
1: De acordo com meu cliente, estão todos lá. São 148 anos de história familiar. O meu cliente lá se encontra há 93 anos. Ele afirma, veementemente, que todos os seus familiares que viveram na sua casa ainda permanecem lá, mas os vivos não a querem.
2: É a palavra do seu cliente. Não temos como provar isso.
1: Ainda assim, os vivos não a querem, deixemos para os mortos, então!
2: Os vivos não a querem porque o seu cliente (e talvez a sua família toda que o sr. afirma tão reiteradamente que lá ainda permanece) as espanta!
1: Pelo contrário, meritíssimo. Anexamos à nossa pedida um laudo técnico de especialista que afirma que meu cliente não pode ser responsabilizado pelo medo dos outros moradores.
2: Que tipo de especialista o sr. poderia ter arrumado para isso?
1: O doutorado dela é em análise do discurso jungiana com forte influência dos estudos lacanianos sobre o tema.
2: Muito bem, prossiga.
1: Aqui, nesta passagem da página 7 diz, eu cito: “O que é um fantasma? São os resíduos de uma alma que permanecem ancorados nos mesmos traumas, sem jamais sublimá-los […]. São os assuntos inacabados que, recalcados na nossa memória, impregnam-se psiquicamente em objetos em que investimos nossos desejos, gozos e sofrimentos, tornando-se, estes objetos, a representação simbólica destes sentimentos investidos.”
2: O que isso tem a ver com o medo dos vivos não serem de responsabilidade de seu cliente?
1: Com a máxima vênia, meritíssimo, é necessário que possamos concluir a natureza do meu cliente, para poder comprovar a sua necessária ligação com o imóvel.
2: Prossiga, então.
1: Na página 19: “É certo que fantasmas, portanto, como não são pessoas físicas…
2: Está vendo, a especialista concorda…
1: Deixe-me continuar, por favor…
2: Desculpe-me, continue.
1: … como não são pessoas físicas, não podem criar novas experiências. Estão obrigados a repetir os mesmos gestos, as mesmas dores, as mesmas vergonhas; ser um fantasma é, em si, uma punição, um ‘purgatório’ como exemplifica o imaginário cristão ocidental. Quando falamos de casas assombradas (quase sempre associadas ao advérbio mal, por quê?) a potência destes gestos é amplificada exponencialmente. Basicamente, cada tijolo da residência se vê impregnado de uma memória.” Daí a autora segue com explicações biológicas do funcionamento da memória e prossegue, no finzinho da página 21 para 22: “É costumeiro ouvir sempre as mesmas queixas de gritos, gemidos, choros. São as dores que ficam. O sofrimento humano é a forma mais contundente de memória que temos.
Mas não é só isso que se encontra lá, nas paredes de uma casa assombrada. Há dores sim; crimes, suicídios e grandes atos de violência deixam uma onda emotiva impregnante fortíssima que se estende além do tempo, mas confinada no espaço – a não ser que se reconfigure e se ressignifique na forma de linguagem, quando tudo, então, se sublima e, mesmo mantendo o seu emotivo caráter, torna-se incapaz, por virtude da própria catarse, de infectar mais, ‘exorciza-se’, por assim dizer, a metástase da dor e da loucura –” E, convenhamos, v. ex., esta casa está cheia destas dores: assassinatos, estupros de escravas, os atos finais do cliente contra a sua mulher, o que não faltam são dores para serem ouvidas pela casa! Mas, deixe-me terminar a passagem: “loucura –. Todo o ‘espectro’ emotivo emana dos ‘espectros’ sonâmbulos, algozes de si mesmos, arrastando suas correntes metonímicas pelos vales dos vãos das janelas e frestas das portas.
Há, também, gozo pelos quartos, há risos pelos corredores, os sons de passos não são apenas os pesados e lúgubres, mas a carreira feliz de crianças. Há os almoços em família, os beijos escondidos, mesmos as infidelidades conjugais que se espalham pelos cantos escusos, não trazem apenas vergonha, mas vêm carregadas do prazer do interdito. Tudo que é proibido e descoberto e redescoberto. ‘Tudo que é familiar, mas veio à luz’.
Poucos ‘vivos’ podem sentir isso. A nossa antena mundana apenas se esqueceu de como captar, sofrer é muito mais humano.” Fim da citação.
2: Então, o sr. propõe que a culpa é das vítimas.
1: Não, apenas que não há vítimas neste caso. Os novos moradores se apegam ao feio dos mortos porque é mais fácil do que buscar os seus belos, muito mais profundo e sutil.
2: É a sina de todos os que estamos vivos!
1: Para finalizar, meritíssimo, gostaria de ler o trecho final deste laudo/parecer/ensaio, se v. ex. me permite.
2: Sim, conclua, mas seja breve.


DESASSOMBRADO - Parte 2


1: E em que ponto não possuir um corpo cria um impedimento legal em possuir uma casa?
2: Se a pergunta em si não fosse absurda o suficiente, sr. ad-vo-ga-do, apenas corpos podem possuir CPFs, portanto, apenas corpos podem assinar escrituras e serem juridicamente válidas. As relações legais são feitas entre corpos.
1: Mas o corpo do meu cliente encontra-se enterrado no cemitério…
2: Já basta, sr. advogado! Ao falecer, o CPF é cancelado!
1: O que não impede que meu cliente possa conseguir outro e, destarte, solicitar que a propriedade do imóvel seja transferido para o novo número do meu cliente!
2: Impede sim, sr. advogado, um fantasma não possui corpo, logo, não pode pleitear um cadastro de pessoa FÍ-SI-CA!
1: Data vênia, meritíssimo, e a Vale?
2: O que tem a Vale?
1: Ela é uma empresa, não possui pessoa física, porém, possui propriedades formalizadas pelo Estado!
2: As empresas são pessoas jurídicas.
1: O mesmo caso aplica-se ao meu cliente. Não é uma pessoa física, mas pode ser reconhecido, por este tribunal, como pessoa jurídica.
2: Se este juízo assim o reconhecer, abriria uma jurisprudência que este juízo não possui competência para criar. Outrossim, empresas devem possuir uma sede física, o que não é o caso de seu cliente.
1: Como não, meritíssimo, a própria casa do meu cliente é sua sede, isto é autoevidente.
2: Ainda assim, o que é “autoevidente”, sr. advogado, é que sem um corpo, o seu cliente não pode responder como pessoa jurídica também.
1: Pessoas jurídicas não possuem corpos, meritíssimo!
2: As pessoas jurídicas possuem proprietários físicos corporais ou são formados por um corpo de diretoria de associados anônimos que respondem pelos maus atos das suas empresas!
1: Como a Vale?
2. Como a Vale!
1: Mas, meu cliente pode responder como a consciência de uma pessoa jurídica! Uma espécie de meio termo!
2: Não existe, no Estado moderno, um meio termo entre ser jurídico e ser físico. A pessoa física é sempre proprietária de alguma coisa. Como o Estado poderia processar o seu cliente, sr. advogado, se ele não é uma pessoa física, portanto, não poderia responder por uma pessoa jurídica. Nós criaríamos uma entidade inimputável em que a força e monopólio da violência não a alcançaria, o Estado não pode responder por isso.
1: Ora, o Estado em si é um ente fictício! É uma sociedade contratualizada por leis e normas jurídicas, por procedimentos impessoais, sem um corpo físico que responda juridicamente por ela, pelo contrário, o Estado é a papelada; burocratas e políticos são os seus agentes e gerentes que se responsabilizam por parte do que podem ou não fazer. Mas, o Estado, ele é uma ficção, o Estado, v. ex., é um fantasma!


DESASSOMBRADO - Parte 1


1: Bom dia, meritíssimo, estou aqui hoje para pleitear, em nome de meu cliente, a propriedade legal da sua casa.
2: Desculpe, sr. advogado, mas não estou entendendo corretamente a pedida do seu cliente. Como é que ele deseja isso? Acredito que seja algo que ele não possa pleitear.
1: Por que não, meritíssimo?
2: A casa deixou de ser de seu cliente há muitos anos. Depois que ele a deixou, houve, pelo menos, três outros donos.
1: Mas, meritíssimo, meu cliente jamais deixou a sua casa!
2: Como não?, ele deixou a todos nós!
1: Pelo contrário, meritíssimo. Aquela casa fora construída pelo seu bisavô. Lá, sua avó nasceu, cresceu, casou-se e teve o pai de meu cliente. Da mesma forma, o pai do meu cliente herdou sua casa, lá cresceu, casou e também morou toda a sua vida e deixou de herança para o meu cliente, portanto, o dono legal da propriedade.
2: Mas, sr. advogado, ao deixá-la e a todos nós, como eu já afirmei (e está bem claro, aqui, documentado nos autos), houve, pelo menos, mais outros três donos depois do seu cliente.
1: Por isso, devo reafirmar, que este não é o caso do meu cliente.
2: Como não, sr. advogado?
1: Ora, meritíssimo. Meu cliente também nesta casa nasceu, cresceu. Criou lá uma grande rede de laços afetivos. Casou-se, duas vezes, as suas duas mulheres moraram lá com ele. Todos, TODOS, os seus quatro filhos lá moraram com o pai. Viveu, gozou, sofreu, morreu naquela casa.
2: Matou-se, o sr. quer dizer.
1: A forma da morte não vem ao caso, meritíssimo.
2: Como não vem ao caso, sr. advogado? Esta é a única prova que eu preciso para indeferir a pedida do seu cliente.
1: O que vem ao caso, meritíssimo, é que há trinta anos ninguém mora mais naquela casa. Ninguém a comprou, ninguém a alugou, ninguém lá VIVEU, como meu cliente lá vivera por mais de seis décadas, quase cem, CEM, anos, sem jamais abandoná-la, meritíssimo, diferentemente dos novos donos passados. Caso clássico, meritíssimo, de usucapião, excelência, se não quisermos levar em conta a propriedade como herança.
2: Herança não poderia ser, jamais, porque outras famílias compraram a casa. Não há sentido de que seu cliente herde a propriedade alheia.
1: É justamente por isso que requeremos, de v. ex., o usucapião do imóvel.
2: Um fantasma não pode ter propriedades, sr. advogado!
1: Ora, por que não? Desconheço qualquer cláusula legal que proíba meu cliente, ou qualquer outro fantasma, de ter a propriedade de um imóvel. Negá-la seria negar a propriedade como um direito humano básico.
2: Seu cliente não é humano, sr. advogado.
1: Data vênia, meritíssimo, como o v. ex. pode afirmar isso? Qual a jurisprudência em que o sr. se baseia?
2: O seu cliente, sr. advogado, não-pos-sui-cor-po!



sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

SOBRE DOIS DE NÓS

CAPÍTULO I
(Os dois fizeram amor no carro).

CAPÍTULO II
Amante: Por que não ficamos juntos de vez? De uma vez para sempre, como sempre deveria ter sido? Eu, você, minha filha,… nossos filhos…
Amante: Não posso… Não podemos, somos casados!
Amante: Sim, mas existe separação, temos que nos perder de novo?

CAPÍTULO III
Eram amigos de infância, famílias vizinhas, aos sete anos prometeram-se casar um com o outro, aos treze, viraram namoradinhos, ela se mudou aos 15 anos.
Nunca chegaram a se beijar.

CAPÍTULO IV
Amante: Mas eu amo a pessoa com quem estou hoje.
Amante: Eu também, mas eu também te amo, mais que tudo, depois de minha filha.
Amante: Aí é que está! Você tem sua filha, suas responsabilidades…
Amante: Não venha colocar a culpa de seu medo sobre minha responsabilidade para minha filha!, ela é minha filha e sempre será, nunca deixará de ser, mas amor de casamento também amo, mas nada como você! você não me quer por causa de minha filha, é isso?
Amante: Não, por ela!, Deus, eu adoraria ter uma filha, ainda mais a sua, teremos os nossos também, já que não os tive no meu casamento.
Amante: E então?
Amante: E então que é minha responsabilidade, minha honra.
Amante: Então sua responsabilidade, sua honra, vale mais do que seu amor por mim?
Amante: Não! sim, isto é, tente entender, não sou só eu, tem minha família, meus pais, meus sogros, tanta gente… Como poderia deixar alguém que gosto tanto por outrem que conheci ou reencontrei hoje? Não é que eu não te ame, que eu não ame a pessoa com quem vivo, foram tantos… tantas dificuldades, tantas tristezas, prazeres e alegrias. Não, não é certo, simplesmente não é certo.

CAPÍTULO V
Festa de fim de ano na empresa. Os dois foram levados por seus respectivos cônjuges.

CAPÍTULO VI
Cônjuges: Amor, quero que você conheça…
Amantes: Você!?
Cônjuges: Vocês já se conhecem?
Amantes: Éramos amigos de infância.
Cônjuges: Ah, que bom, então vamos deixar que matem a saudade dos velhos tempos.

CAPÍTULO VII
Amante: Eu seu que não é certo, e se você falasse outra coisa agora, eu não te reconheceria, não seria a pessoa que tanto amo, que mais amei.
Amante: Também nunca amei ninguém assim. Mas isso também não quer dizer que não ame…
Amante: Eu sei, um amor assim, tão bonito, construído em tantos anos, não se abre mão tão fácil por uma aventura. Mas é isso que somos? Uma aventura? Uma aventura, um para o outro, que, depois do prazer, do risco, perde todo sabor?
Amante: Não sei o que somos. A ilusão do beijo nunca dado? Uma coisa irreal, ideal, que é perfeita e nunca poderá ser vivida e igualada? Ou a coisa verdadeira que, se nunca tentada, será sempre o vazio?
Amante: E pode se amar duas pessoas tão assim, no de-verdade?
Amante: Existe limite para amar? Por que escolher a quem amar dói tanto, é tão assustador?
Amante: Abandonar o amor certo pelo amor louco? É, não é correto isso mesmo.
Amante: Não é correto mas eu quero tentar.
Amante: Contra tudo e contra todos?
Amante: Sim.
Amante: Devemos?
Amante: Ã?
Amante: Devemos, assim, devemos mesmo?
Amante: Não. Nosso dever e nossa vontade são dois inimigos naturais.
Amante: Não podemos conciliar isso?
Amante: Como? Como estamos fazendo agora?
Amante: Sim…
Amante: Mas o que fizemos, é tão errado, é tão mais errado!
Amante: Mas poderíamos manter os nossos dois amores.
Amante: É verdade, não teríamos que escolher, que nos dividir, que sofrer e fazê-los sofrer.
Amante: Mas é tão mais errado! Não é que seja mais fácil para nós, ou não os magoe, que faça do ato mais certo, ou menos errado.
Amantes: Estaríamos só enganando.
Amante: A nós e a eles.
Amante: O que fazer neste dilema tão absurdo!
Amante: Chegar ao ponto de escolher a quem amar sabendo que sempre haverá sofrimento.

CAPÍTULO VIII
Ali, um e outro, olhando-se, no meio daquela festa, o que dizer? O que calar? Nunca o coração batera tao rápido entregando-se. Como mentir naquele instante tão revelador?

CAPÍTULO IX
Amante: Eu te amo.
Foi a primeira coisa que se disse ali, com ninguém por perto.

CAPÍTULO X
Qual era a verdade daquele momento?

CAPÍTULO XI
“Meu amor, o que faço contigo. Mereço uma punição terrível!, mereço o teu ódio eterno? Ou o que mereço, o que merecemos, é o desprezo eterno? Teu, meu, do povo! Não, meu amor, não me odeie por te amar de um jeito tão troncho.”

CAPÍTULO XII
Amante: O quê? O que você está dizendo?
Amante: O que eu não posso mentir.
Amante: Ó Deus, teus olhos!

CAPÍTULO XIII
Quem prestasse atenção às calças dos dois perceberiam imediatamente a excitação sexual que tomou conta deles.

CAPÍTULO XIV
Amante: O que você fez todo esse tempo?
Amante: Estudei, trabalhei, casei…
Amante: Eh! Tudo no passado.
Amante: É, tudo no passado. O que me faz questionar: “E o meu futuro? E o seu?
Amante: E o nosso?”
Misturavam ali verdades profundas com verdades fúteis, enquanto as pessoas aproximavam-se e iam, deixando-os a sós.

CAPÍTULO XV
Amante: O que faremos nós?
Amante: Aqui, neste carro? Talvez primeiro sair dele.
Amante: É a última coisa que quero no mundo. Este momento, indefinidamente.
Amante: Logo amanhece?
Amante: Logo, amanhece.

CAPÍTULO XVI
E amanhecendo ali, o dia tão vermelho.

CAPÍTULO XVII
Enquanto as pessoas iam e voltavam:
Amante: Tem filhos?
Amante: Não, nós nunca quisemos ter… Bem, eu sim.
Amante: Eu tenho uma filha. Quer ver?
Amante: Claro.
Amante: Não é a coisa mais linda do mundo?
Amante: É. Talvez a segunda… ela tem seus olhos, sua boca…
Amante: É, é muito linda, mesmo!
Amante: Presunção!
Riram chamando a atenção do salão.

CAPÍTULO XVIII
Amante: Eu vou me perdoar?
Amante: Vão nos perdoar?
Amante: Por que pensar no sofrimento deles se o nosso é tão palatável? Eu vou me arrepender de ir? Vou me arrepender de ficar?
Amante: Vamos nos perdoar de nossa escolha?
Amante: É, paramos e olhamos: é nossa família.
Amante: E enquanto nos olhamos é o nosso amor.
Amante: É.

CAPÍTULO XIX
Amante: Deus, os teus olhos!
Amante: O que é que têm?
Amante: Você tem que parar de me olhar assim.
Amante: Você não consegue ler meus pensamentos, olhando para eles?
Amante: Que me amaria agora mesmo, neste chão.
Amante: É, a mesma coisa que o teu.

CAPÍTULO XX
Enquanto o elevador desce para o estacionamento no subsolo, a respiração ofegante dos dois sozinhos deixou o ambiente fechado retumbantemente ensurdecedor. Mesmo assim não se tocaram. Mas os olhos…

CAPÍTULO XXI
Amante: Não podemos ficar aqui, desse jeito.
Amante: É, não podemos ficar aqui.
Amante: Não, não aqui, quer dizer, devemos ficar, mas não desse jeito.
Amante: É. Devemos.
Amante: Devemos nos beijar.
Amante: Eu tenho que sentir o gosto da tua boca.
Amante: Não podemos.
Amante: Por quê?
Amante: Porque, se fizermos isso, não sei se conseguirei voltar.
Amante: Eu também.

CAPÍTULO XXII
Amante: Você já fez isso antes?
Amante: Eu?, nunca! Você acha que sou do tipo que trai o casamento?
Amante: Não.
Amante: E… e… vo-você?
Amante: Também… não.

CAPÍTULO XXIII
Subia o elevador. Tinha certeza que não poderia voltar atrás, não importava o resultado da volta para casa, mesmo que no futuro venha a se separar, mesmo que qualquer coisa aconteça, não poderá jamais voltar a este amor de infância roubado e reencontrado, revivido e regozado, este amor tão lindo e tão gostoso estava totalmente perdido para si.

CAPÍTULO XXIV
Ao entrar em casa, encontram esta carta:
“Meu Amor,
Não sei se tu se lembra daquela pessoa que te apresentei naquela festa da empresa, que é casada com aquela tua amizade de infância?
Bem, aquela pessoa que te apresentei e eu somos amantes. Estamos juntos há três anos agora e eu já não suporto mais esta mentira que me come por dentro porque te amo.
Sim, é verdade. Pode me achar hipócrita, viver te mentindo, te traindo e te amando! Mas esta é a verdade, por isso eu aguentei por tanto tempo.
Não quero dizer que te aguentei por tanto tempo, mas eu me aguentei por tanto tempo, o lixo que vivi por tantos anos, me odiando por te amar e te magoar sem que tu saiba.
Por isso tomei esta decisão, a mais difícil de minha vida. Eu te deixei, Amor, eu vou embora com o meu Outro-Amor, não me odeie, por favor, eu não viveria se tu me odiasse. Eu sei que tu vai sofrer, eu estou sofrendo, sei que tu entristecerá, vai amargurar, mas não me odeie.
Mesmo que não me perdoe (mas tente, tente, tente, por favor, tente), não me odeie.
Eu te amo e adeus,


 …”