sábado, 2 de dezembro de 2017

EU ESTIVE AQUI

Eu estive aqui. Eu estive aqui por oito anos, aqui vivi quase toda a década de 1990, todo o meu ensino fundamental. Se, de certa forma, a maior parte de minha formação intelectual se deu no ensino médio, aqui se deu minha formação emocional. Aqui foi onde ouvi pela primeira vez a palavra "Marx", também foi aqui, neste colégio Arquidiocesano, que fiz minha primeira comunhão e tive como professora uma freira que destruiu todo o meu pavor de Céu e Inferno: "Céu e Inferno são estados da alma."
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Eu estive aqui. Nos meus sonhos ainda me vejo criança na mesma sala de aula, desejando escalar um andaime vermelho que passou um ano inteiro defronte a classe. Classe no térreo em que escrevi o meu primeiro poema (um acróstico bastante elogiado) para uma aula de redação da 6ª série (atual 7º ano).
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Eu estive aqui. E as árvores centenárias sob as quais brincava e sorria quando menino não me parecem tão enormes quanto na minha memória... Então me resta a certeza que a memória está certa, os olhos errados.
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Eu estive aqui. Nesta sala. Atrás desta porta ora trancada se deu o momento mais importante da minha vida. Toda os meus segundos se resumem ao que ocorreu atrás desta porta, numa manhã de terça-feira, durante uma aula de Língua Portuguesa no segundo horário, uma aula chatíssima de análise sintática de períodos compostos por subordinação. Era uma sétima série, atual oitavo ano, e da minha janela no primeiro andar, dava para ver os campos de futebol.
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Folheando a gramática, tentando fugir dentro da minha imaginação daquele infortúnio de reduzidas de gerúndio e de infinitivo, que me deparei com a lição de verbos. Naquele tempo, as aulas de língua portuguesa tentavam se modernizar, viver a partir do texto, mas era ainda só uma tentativa, e todo capítulo começava com um poema. O poema de "Verbo" era "José", de Carlos Drummond de Andrade - provavelmente para falar de subjuntivo -. E qual não fora meu impacto, qual não fora minha dor!
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O resto do dia passei lendo e relendo aquele poema, li outros, TODOS do livro, não saí para o intervalo, não visitei a biblioteca como sempre fazia para devorar os livros que lá havia. Apenas li, li "José". "José" era eu, era minha vida inteira, meu presente, meu passado e, acima de tudo, o meu futuro. Minha vida se resume à primeira vez que li "José".
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Naquele mesmo dia, escrevi o meu primeiro poema (agora de verdade, sem mandado de professora). E fiz um desenho. Na verdade foram dois poemas e dois desenhos (um dos textos era em inglês). Desenhei porque ainda não entendia direito a função da imagem poética (e a estruturação dos versos) e no livro - não me esquecerei jamais -, todo poema vinha conjugado com uma bela imagem, o de "José" era de um homem de meia idade de costas, caminhando sobre uma relva verde sob um céu rosáceo.
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Por muitos anos ainda guardei a relíquia da gramática como um memento do momento. Eu não poderia saber, mas eu já sabia que estava condenado. Condenado como o menino calado de poucos amigos, como o jovem calado de poucos amigos, o homem calado preso ao convívio familiar e trabalhista que precisaria escrever, escrever sempre, e muito, quase nunca algo bom, para compensar nesta fala dura do papel a frustração de não dizer o seu íntimo.
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Por causa de uma aula chatíssima de orações subordinadas reduzidas de gerúndio e infinitivo eu fui condenada a ensinar, pelo resto de minha vida, orações subordinadas reduzidas de infinitivo e gerúndio.
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Mas foi, principalmente por causa destes professores que me tornei o professor que sou.
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Muito mais do que um conteudista, mas alguém com paixão com quem se vive e e se convive. Todos amavam esta família, a família que eu sou. Se muitos alunos me dizem que sou um ótimo professor, se alguns me falam que eu sou péssimo, e se outros tantos me dizem que eu sou o melhor que já tiveram, "o melhor professor do mundo", é que eles não sabem a verdade: Eu sou um imitador; sou um imitador de todos estes maravilhosos professores e professoras que amaram tanto o que fizeram e amaram a família que construíram dentro dos muros desta escola.
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Eu despejo para eles, apenas uma fração da paixão em que fui banhado.
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Pio XII, muito obrigado.
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02/12/2017 (vinte anos depois de minha saída).

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PAX ROMANA

Eu nos ofereço a Paz Romana
e sob esta Águia
          conviveremos
e sob esta Cruz
          conviveremos
e sob esta Espada
          conviveremos

Eu nos ofereço a Paz Romana
e perante minha Lei
          iguais seremos
e perante minha Lógica
          iguais seremos
e perante minha Língua
          iguais seremos

Eu nos ofereço a Paz Romana
e sob minha Sombra
e perante minha Luz
          governaremos

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

SONETO

Sou poeta, meu bem, tu bem o sabes,
De palavras eu vivo e sensações:
Teu corpo é uma ideia e nela cabes.
         Amamo-nos na carne e nas ações,
        Mas sem palavras tudo fica feio,
        Por isso nos traduzo nas canções.
Nosso corpo é só tão somente o meio
Do Amor. Palavras são, em si, o seu fim,
Virando quase autônomas, eu creio.
        Não faço apologia deste, assim,
        Amor sem corpo, sem carne e tesão,
        Mas faço um elogio das almas, sim.
Há Amor que se faz Carne, mas que não
Foi Verbo. Amor sem vida, sem razão.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

PRIMAVERA

Primavera esquenta
Os ipês despem-se de suas verdes folhas apáticas
e cobrem-se de seus órgãos floridos
brancos, amarelos
Mas são os rosas sensuais e doces
que fascinam meus olhos com estupefação

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

RECANTO

Como te desejo
E quanto!
Mas se não te vejo
Tal santo
Evoco meu pejo
Meu pranto!
Imagino o beijo
E canto
De Amor. Eu despejo
Encanto,
Eu rumino e invejo
O tanto
De abraço que almejo.
Portanto
Teus lábios cortejo
Enquanto
Garanto
De ti meu ensejo,
Recanto.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

NO RETORNO NÃO SE PERDE

"Ninguém se perde na volta"
Por isso, me receba bem feliz
Nada, pois, a nós importa
Tudo o que te fiz.

Abra teus braços envolta
Do meu pescoço e, então, tu vens e diz:
"És minha raiz!
Entre dentro desta porta!"

Nosso laço não se solta,
Não se rompe, nem se corta.
Tal mestre e aprendiz
Sempre fizemos tudo quanto eu quis.

Se me perdi por uma meretriz
A obrigação nos exorta
Perdoar-nos sem revolta
Viver nosso bis.

domingo, 15 de outubro de 2017

PROFESSOR É PROFISSÃO

Professor é profissão.
Ser educador, tutor,
Ou ser facilitador,
Depende de qual visão
Que tu tens da educação.

Sem ideias não se educa,
Só se passa informações
Que se cobra em prestações
Do que se guarda na cuca
Pra se esquecer aos milhões.

Mas não é só profissão,
É um projeto de mundo.
Trabalhar na Formação
É, no mais íntimo e fundo,
Lutar por Transformação.

15/10/2017