terça-feira, 12 de maio de 2026

BEIJO

Teu batom grosso,
                                 cremoso,
                                                  rosa
Prendeu-se em minha
        boca
Passei o dia inteiro
Perturbado
Por isso 
Preciso
Que venhas até aqui
        buscá-lo

sexta-feira, 13 de março de 2026

COMA

O que há de errado comigo
Pra não me quereres tanto?
Dormimos no mesmo abrigo
Sem sono, suor, perigo,
E um beijo de desencanto.

Eu sinto saudades tuas
Dividindo a mesma cama.
A madrugada nos chama,
Mas surda tu continuas
A suspender a quem te ama.

Sábio quem sabe sofrer!
O dia chega calado
E meu corpo sem comer.
Eu queria estar errado,
Mas vi teu tesão morrer.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

NOSTALGIA DE DEUS



Sinto esta falta em mim,

tão ambígua,

tão laica,

Este estar perdido, este

não compreender o que me vem

Sem compreender direito o que sei, apenas que vejo

O mundo e é como se ele me respondesse

Quase de imediato à minha triste incógnita

Este andar compassivo,

compassado,

plasmado

Das minhas dúvidas

e agnosticismos


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

ARMISTÍCIO

Propomos um armistício 
Clamando vossa Humanidade
Contra nossa selvageria:
Vós parais de nos matar
Nós paramos de morrer
Vós parais de nos atacar 
Nós paramos de sofrer
Vós parais de bombardear 
Nós paramos de correr 
Vós parais de nos fuzilar 
Nós paramos de nos defender 
Vós parais de nos roubar 
Nós não paramos de viver

Sabemos o tão pouco que podemos
Vos oferecer 
Não temos mais a terra que tomastes
Para negociar 
Não temos mais a água que tomastes 
Para vos trazer 
Não temos mais a paz que tomastes 
Para nos render
Não temos mais a alegria que tomastes
Para vos humilhar
Não temos mais dignidade
Para vos ofender

Propomos armistício
Contra vossa Humanidade
Clamando nossa selvageria

SONETO

Se por amor for, deixe-a a mim voltar;
Se for só solidão, me deixe estar;
Sempre é bom se saber de quem gostar.
        Quando for por carinho, é que nem ar!
        Quando for complacência, só, prefiro
        Viver. Me deixo ser como ficar.
Sozinho vivo e canto, assim me viro!
Se ela voltar, meu mundo fica rosa
De coração! Sem solidão, respiro.
        Minha alma, sem ela, ficou porosa.
        Escondo-me nas ruas, sombra viva.
        Acabou poesia, mal há prosa!
Nela, dediquei litros de saliva.
Por ela, chorei horas à deriva.




terça-feira, 24 de setembro de 2024

VOLTAS

O bode doce miou
Num canto torto da sala
Em seus cem sonhos sem cor
Sob o sovaco uma mala

Para longe o bode santo
Se admirou e cresceu
Dançando forró mais eu
Na espia do torto canto

Cem dias em cem novelas
Um novelo de lã pelas
Esquinas do meu sovaco
Fiou o bode doce e opaco

Com o Mal, eu cortei meu vínculo
Ficou o bode doce e santo
Aqui quase tudo é símbolo 
Feliz danço doido e canto

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

SONETO

A lágrima é a alma liquefeita
Que embora tendo sombra e brilho
Transparente é em sua perfeita
         Forma. E quando cai por seu trilho
         De alegria rica ou tristeza
         Doente, explode -> grão de milho <-
Em toda sua flor-branqueza.
Lágrima é a alma que se derrama
Às vezes leve, e na aspereza
         Também: flor de fogo sem flama -
         Que se desfaz salgando a boca
         Tal se limpa poço de lama.
Lama e alma: cai no céu e toca
O rosto em sua fuga pouca.