sexta-feira, 22 de abril de 2011

Coluna analisa ano do Botafogo e vê 'quadro medonho''

Nas próximas semanas, diminuirá o espaço destinado ao Botafogo pela imprensa esportiva, em todos os meios. Não é necessário bola de cristal ou teoria conspiratória para explicar o fenômeno. Pelo contrário, as coisas são muito simples. Só existem duas maneiras de um time que não tem a maior torcida de um estado — o que garante ibope, chova ou faça sol — se manter em evidência: vencer ou fazer grandes contratações.
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No Campeonato Carioca de 2011, o meu alvinegro não fez nem uma coisa nem outra. Perdeu nas semifinais da Taça Guanabara. Nem chegou a se classificar para as semifinais da Taça Rio. Como resultado, pela primeira vez desde 2006, ficou fora da decisão do título estadual, que conquistou duas vezes no período. Tinha de acontecer mais cedo ou mais tarde, claro, mas não
precisava acontecer de modo tão resignado.
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Olhando em retrospecto a preparação para aquela que deveria ser a campanha do bicampeonato
2010-2011, é óbvio que não tinha como dar certo. Fica a impressão, quase certeza, de que a diretoria simplesmente abdicou da conquista do título. Porque só ganha quem ataca e, do ano passado para cá, o time desidratou do meio para a frente: devolveu Edno, emprestou Jóbson, vendeu Lúcio Flávio e Renato Cajá.
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Se tivesse havido reidratação... Todavia, em troca, a diretoria contratou apenas um jogador mais ofensivo: Fabrício, meia que não atuava há um ano pelo Juventude, de Caxias do Sul. Ah, essas transações estranhas do mercado da bola... Em compensação, trouxe para General Severiano um zagueiro, dois laterais e três cabeças de área. Bem na tática acovardada do ex-técnico Joel Santana. Nenhum cartola desconfiou de nada?
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Por isso, soa como piada ler no “Panorama Esportivo” que o digno presidente Maurício Assumpção detectou o “excesso de volantes” no elenco alvinegro como outro problema, além da falta de meias. Sim, há oito no elenco: Araruama, Arévalo, Bruno Thiago, Fahel, Lucas Zen, Marcelo Mattos, Rodrigo Mancha e Somália. Ora, sete (a exceção é Lucas Zen, da base) foram contratados na gestão do próprio Assumpção e de seu vice André Silva, seis deles (a outra exceção é Fahel) enquanto Joel foi técnico.
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Dias depois, o presidente do Botafogo deu uma palestra na Casa do Saber. Nela, entre outras coisas, declarou: “Não estou satisfeito com o time. (...) Talvez tenha havido um erro estratégico para o Carioca, mas foi baseado no que alcançamos no Brasileiro. Talvez o erro tenha sido o de não trazer um meia.” Talvez? Talvez? Maicosuel contundiu-se gravemente no joelho esquerdo em setembro do ano passado, ainda durante o Campeonato Nacional. De cara, a previsão era de que não voltasse a jogar antes de oito meses. Ou seja, com sorte, apenas nas finais do Carioca.
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O Botafogo, porém, nunca chegaria às finais. Perdeu o omisso Lúcio Flávio e o irregular Renato Cajá, que ao menos eram armadores de verdade. Trouxe e improvisou o ala Everton, sumidaço em campo, além de Fabrício, que disputou uma única partida como titular. Ao apagar das luzes da Taça Rio, anunciou Thiago Galhardo, do Bangu. Para o Brasileirão, fala-se em Gilberto (Cruzeiro), Ricardinho (ex-Atlético MG), Andrezinho (Internacional) e, discreta e esperançosamente, Diego (Wolfsburg).
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Falta dinheiro, decerto, e a desclassificação no Carioca não vai ajudar. O fato de o Botafogo também não ter se classificado para a Libertadores da América deste ano criou o círculo vicioso. No Brasileirão 2010, o time esteve perto de conseguir a vaga continental. Não conseguiu por uma combinação perversa entre uma onda de contusões — na qual a de Maicosuel foi a “rainha” — e o espírito retranqueiro de Joel. Na derradeira partida, contra o Grêmio, no Olímpico, a classificação ainda estava à mão, bastava vencer. Contudo, ele escalou três zagueiros e três volantes. Perdemos de três. Foi pouco.
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Joel não é um mau técnico, longe disso, mas não é versátil. Capaz de motivar um elenco como ninguém, incapaz de transformar elenco motivado em elenco superior. Contrata do meio para trás, é paternalista, escala muita gente na defesa. Por isso, agora Caio Júnior está administrando a “herança maldita”: plantel desequilibrado, grupo inseguro, time que só sabe se defender. A estreia no Brasileirão será fora de casa, contra o Palmeiras, daqui a um mês. Haverá tempo hábil para reverter esse quadro medonho?
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Caio Júnior precisa que a diretoria faça a sua parte, como fez em 2010, senão o Botafogo desponta como sério candidato ao rebaixamento.O técnico também tem de se ajudar.Não adianta criticar a torcida por vaiar Alessandro aos 15 minutos de um jogo. Como comentou Paulo César Vasconcellos, do Sportv, durante a primeira partida contra o Avaí, o veterano lateral-direito estava sendo vaiado “pelo conjunto da obra”. Como Caio Júnior espera que torcedores manifestem a sua insatisfação? Com cartas seladas?
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Claro, na vida tudo sempre pode ficar pior. Como o Botafogo empatara a primeira partida com o Avaí em 2 a 2, no Engenhão, precisava vencer ou empatar em 3 a 3 ou mais, na Ressacada, na noite de quarta-feira. Jogou bem, mas empatou em 1 a 1, sendo eliminado por um pênalti caseiro. Esse fracasso também na Copa do Brasil foi catastrófico. Na última vez em que escrevi sobre o Botafogo, em dezembro passado, ousei prever que nosso 2011 seria melhor que nosso 2010. Acho que errei.
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Fonte: Coluna do Arthur Dapieve - Segundo Caderno - O Globo
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fonte:
http://www.fogaonet.com/noticia.asp?n=17176&t=vale+ler+coluna+analisa+ano+do+botafogo+e+ve+quadro+medonho