quinta-feira, 21 de abril de 2011

Botafogo: cadê a base?

Mozart Maragno - 25/02/2008
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Todos já ouvimos sobre a “seca” na formação de jogadores no Botafogo nos últimos tempos. Vamos tentar analisar alguns pontos para entender um pouco do que houve nesse processo, bem como as perspectivas diante do atual quadro. Em 2007, por exemplo, grandes nomes da história do clube se manifestaram acerca do momento vivido e, sobretudo, a situação das categorias de base. As observações de Roberto Miranda e Jairzinho – campeões mundiais em 1970 – para o Diário Lance! , serão os pontos de partida para nossa reflexão sobre essa situação:
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"Antigamente o Botafogo revelava muitos jogadores. Hoje está difícil. Quando o Botafogo revela um ou dois jogadores hoje em dia já é muito. O problema são os empresários. Mas o clube que quer ser o grande não pode deixar isso acontecer. Precisa segurar os jogadores. Eu fui feito dentro do Botafogo. Tanto eu como o Jairzinho, Rogério, Carlos Roberto e tantos outros. Naquela época o Botafogo formou um grande time. Se continuasse assim, o clube hoje estaria melhor." (Roberto Miranda)
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"Eu sou um dos grandes exemplos do que é investir na categoria de base. Não custei nada e dei muito ao Botafogo na década de 60. Eu venho ao longo dos anos sempre falando que o Botafogo e deve olhar com muito carinho as divisões de base. O futebol é uma renovação. Recentemente tinha uns cinco garotos do meu centro treinando no Botafogo. Mas entrou uma comissão de divisões de base e mandaram os garotos embora. Hoje eles estão em outros clubes porque o Botafogo fechou as portas. Tomei conhecimento de que, quando souberam que eram jogadores indicados pelo Jairzinho ou por qualquer ex-jogador, não iriam aproveitar." (Jairzinho)
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Embora sejam depoimentos de figuras importantes, não entram no ponto nevrálgico do problema. É apenas uma amostragem da média de avaliação sobre a base botafoguense, isto é, não revela gente de peso, oferece uma estrutura carente e erra nas escolhas dos profissionais. Os ídolos fazem propaganda pessoal e, evidentemente, estão longe de ser a solução. O fato é que Marechal Hermes, o centro da base, foi bastante maltratado (e o torcedor é quem sofre com isso). Vejamos, então, com mais detalhes, como o descaso e a falta de tato para com os novos tempos do futebol acabaram fustigando as categorias de base do Botafogo.
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História gloriosa
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Foram 46 jogadores do Botafogo convocados para Copas do Mundo. O maior fornecedor da história do futebol brasileiro. A maioria com atletas formados no próprio clube. Claro que, com o enorme êxodo, nas últimas Copas acabaram diminuindo os representantes de times nacionais. Porém, dentre os brasileiros, o Botafogo pouco contribuiria numa seleção caseira, por exemplo. O dado inquestionável é que havia revelação qualificada e não há mais (com regularidade).
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As seleções de base podem oferecer um quadro mais atual. Em 20 anos, quais foram os destaques botafoguenses? No Pan de 63 (em São Paulo), Jairzinho era o grande nome. Em 68, o Botafogo pode lançar mão de um garoto para surpreender o Flamengo numa final de campeonato: era Paulo César Lima. Além do prejuízo esportivo, hoje a falta de revelações qualificadas gera prejuízo financeiro. Um grande jogador revelado pode garantir uma boa venda e tranqüilidade orçamentária, especialmente em clubes mais combalidos. Temos vários exemplos recentes desse tipo.
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Mazelas
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A crise financeira atingiu ao Botafogo como um todo a partir da década de 90. A base, claro, virou a última das opções no investimento dos parcos recursos. O pouco veio da ajuda de conselheiros mais abastados que procuraram não deixar Marechal Hermes morrer. Há, além da falta de dinheiro, negligência de quem passou pela diretoria. Não houve preocupação em longo prazo. Um erro estratégico fatal. A crise financeira atingiu a maioria dos grandes clubes brasileiros. Não foi privilégio do Botafogo. A reestruturação da base foi a alternativa de muitos, ainda que lentamente, em alguns casos.
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O advento de Bebeto de Freitas deu maior qualidade e credibilidade à gestão do clube. Foi um avanço significativo para quem teve o bicheiro Emil Pinheiro como máximo dirigente (tempos de “vacas gordas”; e nem suspeito o motivo). Só que a base continuou deixada de lado. O discurso anti-empresário imprimido não resolveu problema algum. A vitimização muito menos. Era preciso investir algo, de fato, em Marechal Hermes. Carlos Alberto Lancetta, renomado profissional na preparação física e botafoguense ilustre, foi uma importante figura na base. Ajudou muito ao clube angariando donativos.
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O desentendimento com Bebeto acabou causando sua saída. Acusações de que o presidente poderia inclusive extinguir a base surgiram. Entretanto, o ex-jogador Afonsinho foi contratado. Sua passagem foi bizarra. Sem qualquer preparação e qualificação para o cargo, ficou pouco tempo. Mas nem tudo está perdido, para usar um dito popular.
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Esperanças
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Dé Aranha conseguiu ótimos resultados com o time júnior do Botafogo entre 1996 e 2001. Léo Moura pode ser considerado a grande revelação desse período. Nenhum foi adequadamente aproveitado. Depois disso os resultados foram pífios. Digno de nota, apenas Hugo, atacante que foi campeão Mundial sub-17, em 2003 (desapareceu). Rodrigo Fernandes, lateral-direito que foi ao Mundial sub-17 de 2001, sumiu igualmente. Nos últimos dois anos, alguns bons nomes apareceram, mas a falta de estrutura e o estilo tacanho dos diretores dificultaram o aproveitamento. Fellipe, ótimo volante, não resistiu ao assédio e está no Benfica (após PSV). Simões, zagueiro, foi para o Cruzeiro.
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A culpa é sempre do empresário, do clube que assedia. O Internacional, por exemplo, foi acusado recentemente de aliciar garotos alvinegros. O Botafogo poderia largar esse discurso e se preparar para o mercado do futebol, que ficou muito mais complexo do que era na época do passe. Vários outros conseguem se virar melhor com a Lei Pelé. Não adianta fugir do óbivio: é necessário melhorar a estrutura, pois os meninos saem mesmo ao encontrar maior qualidade em outros lugares. A falta de jogo de cintura dos diretores fica clara a cada dia também em outros episódios que não apenas os da base.
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Alguns nomes dão esperança de um futuro de mais e melhores revelações. Rodrigo Dantas, meia, foi convocado para a sub-18, em 2007. Júnior, atacante, foi ao Mundial sub-17 do ano passado e marcou até gol. Os goleiros Renan e Luis Guilherme podem ser os titulares da sub-17 e sub-20 do ano que vem. Em boa hora, para quem teve muitos problemas na posição recentemente. Algumas coisas melhoraram no clube. Conseguiu um estádio novo, tem gente bem intencionada querendo o bem da agremiação (e não os bens). O que pode atrapalhar é uma possível postura centralizadora, pouco flexível, que precisa adequar a realidade para melhorar a formação. Ela é fundamental e esses possíveis frutos podem provar isso.
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fonte:
http://www.olheiros.net/artigo/ler/276