quinta-feira, 21 de abril de 2011

Botafogo/99: talentos desperdiçados

Pedro Venancio - 17/04/2009

O ano é 2002 e o Botafogo acaba de ser rebaixado no Campeonato Brasileiro após perder para os reservas do São Paulo, em Caio Martins, por 1 a 0. O time, repleto de apostas malsucedidas, convivia com problemas extra-campo que cercavam o clube há pelo menos três temporadas. Os meninos da base, após conquistarem três títulos cariocas em quatro anos, se viam desprezados em meio ao caos que marcava o clube na administração Mauro Nei Palmeiro.

Na Alemanha e com a carreira estabelecida, o zagueiro Juan declarou que tinha curiosidade para saber onde estavam seus adversários da base botafoguense. “Simplesmente não conseguíamos ganhar deles. O Botafogo tinha um time fantástico e fico surpreso com o não aproveitamento dos garotos no profissional”. E o zagueiro não foi o único a enxergar o desperdício de uma geração inteira.

O início

O período de ouro dos juniores do Fogão começou em 1997, com a conquista do título estadual. O clube ainda vivia resquícios de euforia da conquista do Brasileirão de 1995 e também levou o Cariocão entre os profissionais. A base, porém, era pouco aproveitada e poucos jogadores tiveram chances durante a disputa, que teve três turnos e quase não terminou.

A tendência era que os meninos entrassem no time durante o Campeonato Brasileiro, mas uma campanha abaixo da média acabou queimando promessas como Marcos Aurélio, meia apontado como uma das revelações daquela geração. Dos que subiram, o atacante Zé Carlos foi o único a se firmar nos profissionais e conseguir relativo sucesso. Aos outros, restou voltar aos juniores ou ser emprestado a um clube pequeno para a disputa do estadual do ano seguinte.

Em 1998, enquanto o time principal claudicava, os garotos seguiam em frente. A missão, porém, era mais espinhosa do que no ano anterior, pela qualidade dos times na disputa. O Flamengo contava com uma geração vencedora, composta por Juan, Fernando, Júlio César, Reinaldo, Alessandro, Cássio e Lê, entre outros. O Vasco tinha Hélton e Géder, além de um conjunto muito forte que acabou como vice-campeão da Copa São Paulo no início do ano seguinte.

Os cruzmaltinos conquistaram o primeiro turno após tropeço do Botafogo contra o Bangu, e venceram o Glorioso nas duas vezes em que se encontraram antes das finais, por 1 a 0 e WO, respectivamente. Mesmo com o não comparecimento, o Fogão faturou o returno e garantiu o direito de disputar a final. A redenção veio com duas vitórias por 1 a 0 e o bicampeonato garantido. O meia Léo, artilheiro da equipe com 13 gols, era apontado como o “novo Zico” pelo técnico Dé, comandante da equipe. Sua estréia nos profissionais foi ainda no Brasileirão daquele ano, contra o São Paulo.

A apoteose

Se o ano de 1998 já marcava a consolidação de uma geração vitoriosa, a temporada seguinte acabou mostrando que os juniores do Fogão não eram bons apenas em campeonatos estaduais. O clube tentou o tri, mas foi impedido pelo Flamengo, que contava com Juan e Fernando na defesa e os promissores atacantes Lê e Reinaldo, que no fim do ano viriam a ser decisivos na conquista rubro-negra da Copa Mercosul diante do Palmeiras.

Os meninos de Dé encararam a perda do tricampeonato como um acidente de percurso e sabiam que o troco estava por vir. Afinal, a disputa da Taça Belo Horizonte era logo mais, no mês de julho. Os botafoguenses fizeram uma bela campanha, passando sem dificuldades pelas primeiras fases e aplicando 3 a 0 no Paraná Clube nas semifinais. A decisão, contra o Flamengo, era uma grande oportunidade de ir à forra.

E a vingança não poderia ser melhor: 8 a 3, com direito a gritos de olé da torcida presente em Itabirito, interior de Minas Gerais, local da final. O atacante Daniel, com dois gols e duas assistências, foi considerado o melhor jogador em campo. Tal atuação lhe rendeu uma promoção imediata para os profissionais, que vinham de um vice-campeonato da Copa do Brasil e nutriam boas expectativas para o Brasileirão. A campanha, no entanto, foi desastrosa, e o alvinegro só não foi rebaixado porque ganhou, no tapetão, os pontos do jogo contra o São Paulo, que havia perdido em campo por 6 a 1.

Com o estouro do limite de idade dos jogadores, o time já se desfazia em 2000, quando conquistou novamente o título carioca de juniores com uma campanha irretocável: em 20 jogos, 18 vitórias, um empate e apenas uma derrota. Era o canto do cisne de uma geração que o técnico Dé classificava como fantástica. “Das duas, uma: ou esse time é muito bom ou então eu sou um técnico de outro planeta”, afirmava.

Velocidade e técnica

O time mudou sua configuração durante o período, mas era claro que a aposta de Dé era sempre por um futebol ofensivo, com estratégias simples e vitoriosas. O ataque começava na defesa, com laterais agressivos como Leandro Eugênio e Leandro Teodoro fazendo ultrapassagens freqüentes e dando opções aos meias Leozinho e Renatinho (posteriormente Geraldo) para a tabela.

Os atacantes Felipe e Daniel se revezavam na área, saindo para buscar jogo e, com isso, confundindo os zagueiros adversários. A movimentação constante era uma marca registrada daquela equipe, que fazia muitos gols de contra-ataque ou em triangulações rápidas. O fato de todos os jogadores serem muito leves certamente ajudou na composição do time, que também era equilibrado defensivamente.

Ostracismo

Quase dez anos depois, pode-se constatar facilmente que praticamente todos os jogadores dessa geração vencedora não vingaram, e não deram lucro nenhum ao clube. A exceção fica por conta de Léo Moura, meia reserva do time em 1998, que teve que ir à Bélgica e voltar como lateral-direito para tanto. Fez um belo Campeonato Brasileiro em 2001, mas não resistiu ao caos administrativo do clube e arrumou as malas. Hoje, é ídolo do Flamengo e, curiosamente, voltou a atuar como meia.

O centroavante Felipe, apontado como um dos melhores da equipe, chegou a ter brilharecos nos profissionais, mas não resistiu a uma seqüência de lesões e acabou saindo do clube para conseguir uma seqüência. Passou por Juventude, América-MG, Cabofriense, Tupi e hoje tenta a sorte no Pontevedra, da segunda divisão espanhola. Outro que teve relativo sucesso foi Márcio Gomes, destaque da campanha do vice-campeonato da Série B em 2003, que hoje é reserva do Resende.

Quem também atua no Resende é Leozinho, que teve pouquíssimas oportunidades na equipe profissional e não conseguiu corresponder às expectativas criadas em torno de seu futebol. Daniel, craque da final da Taça BH, teve chances, mas sucumbiu à crise alvinegra e atualmente defende o Kalmar, da Suécia, onde é reserva. O lateral Leandro Eugênio, outra grande promessa, passou pelos quatro grandes do Rio sem empolgar e, recentemente, foi dispensado do Barueri.

No início de 2001, vários desses jogadores foram promovidos aos profissionais, mas pereceram diante da completa desordem que vivia o clube naquele momento. A péssima campanha no Estadual teve como ápice a goleada por 7 a 0 sofrida para o Vasco. O revés acabou “queimando” jogadores como o zagueiro Bruno e o volante Serginho, além de ter causado o pedido de demissão de Dé, que dirigia os profissionais à época. A degola, no ano seguinte, foi apenas o tiro de misericórdia e serviu para sepultar a mais vitoriosa geração que surgiu na base de General Severiano nos últimos 40 anos.

Ficha técnica

Clube/Seleção: Botafogo

Técnico: Dé

Competição: Taça Belo Horizonte

Ano: 1999

Escalação: Igor, Leandro Teodoro, Edimar, Bruno e Leandro Eugênio. Cléber, Sidicley, Geraldo e Leozinho. Felipe e Daniel

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