terça-feira, 19 de abril de 2016

A SEMANA

Há uma semana no ano que sempre senti esburacada, aquela que se estende de 18 a 22 de Abril. Nestes 5 dias, comemoramos o dia do livro (18/04), em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato; o dia do índio (19/04); o dia de Tiradentes (21/04); e por fim, a “descoberta” do Brasil (22/04). É como, que por maldade, deixassem de fora o dia 20, bem no meio, perfeitamente desenhado, nesta configuração, para ser o “dia do navio negreiro”.

Num país de milhões de analfabetos e majoritariamente contemplado por analfabetos funcionais diplomados, um dia do livro para homenagear (data instituída no ano de 2002) um escritor lembrado pelas adaptações televisivas de sua obra é, na acepção mais brasileira do termo, uma hipocrisia! Quando falo para meus alunos de “Urupês”, “Velha praga”, “Jeca Tatu”, eles não fazem a mínima ideia do que estou falando. Para piorar a situação, quando finalmente descobrem a literatura infantil de Lobato, percebem o quanto a ideologia da época permitia o racismo (Tia Anastácia = macaca), o preconceito de classe (o capiau, o Jeca = tatu, urupê, praga), num escritor renomado e tentam proibi-lo, e isto depois de homenageá-lo: não só hipocrisia de classe, mas desejo de censura. Mais sábio é usá-lo para ensinar a ideologia que carrega um neto de barão de café paulista, ao mesmo tempo em que podemos ver a evolução e modificação de sua formação ideológica durante os anos.

No dia 19, comemoramos o genocídio de milhões, o etnocídio de centenas de nações e culturas, a escravização de curumins, a violência e o estupro sistemático de tantas cunhãs, pelas mão invisível e civilizatória do mercantilismo globalizante europeu. Amém.

No feriado de Tiradentes não homenageamos os dentistas, mas a traição, a covardia, o bode expiatório. Quase todos sabem quem foi Tiradentes porque não trabalham, mas o alferes Joaquim José da Silva Xavier é um misterioso desconhecido, cujo rosto é desenhado aos moldes do Cristo-Louro judaico-cristão, e este seu nome serve de nada mais do que pegadinha em provas de História. Comemoramos seu martírio como bode expiatório da Inconfidência Mineira, o que permitiu que os ricos e poderosos conspiradores (à exceção do poeta e jurista Cláudio Manoel da Costa) pudessem sair vivos do inquérito. No dia 21, festejamos o seu enforcamento e esquartejamento, a execução do mais fraco, do mais pobre dentre os conspiradores, lembramo-nos que a insurgência foi sobre impostos, mas “quem paga o pato”? Não foram, não são e nunca serão os que comem filé mignon. Ao lado do cadáver, também rememoramos o seu traidor, pois todo Cristo-Louro judaico-cristão tem seu Judas Iscariotes: Joaquim Silvério dos Reis. Os dois Quincas mais famosos de nossa História: o traído e o traidor.

Dia 22, encerrando os cinco dias comemorativos, somos levados a aplaudir o “achamento” da terra de Vera Cruz, o tratado de Tordesilhas que nos definia como nação nordestina e pátria brasileira já em 1494, o roubo de milhões de toneladas de ouro, prata e gemas, de urânio, de cobre e de muito, mas muitíssimo ferro, que vale menos, mas dá bem mais lucro, pois ferro faz o aço dos prédios, das pontes, das espadas, das pistolas, dos canhões, dos mísseis intercontinentais. Vale, vale, Vale bem mais, os rios doces grandes como mares, os mares salgados de tantos peixes, sujos para sempre. Louvamos a Mata Atlântica devastada para suprir o mercado europeu de púrpura, de açúcar, de café, de cacau, de sangue. Amazônia devastada para suprir o mercado europeu de borracha, de carne, de couro, de suor e soja.

Falta-me, ou não, um dia do navio negreiro, já que neste mês, no dia da mentira (01), lembramos o dia do Golpe Civil-Militar de 1964, que, de tão vergonhoso, é sempre revolucionado para horas antes?

Como lembraremos, então, o dia 17/04? O dia da hipocrisia, em que o povo finalmente viu a incompetência, a inutilidade, e a ideologia de classe, ou melhor, de família da Câmara federal? O dia do genocídio de 54 milhões de votos e do estupro de nossa constituição? Os rostos dos traídos e dos traidores, dos heróis e dos conspiradores? A devastação da democracia brasileira para o enriquecimento do mercado estrangeiro pelos nossos bens primários como o petróleo?

A verdade é que só o futuro olhará com olhos de passado para hoje. E nesta frase, ausente de qualquer efeito poético, tento entender esta semana pátria, estes seis dias tão maravilhosos para nos compreendermos como nação, como carnaval de nós mesmos.


E, em nome dos meus filhos, da minha companheira, dos meus pais, da minha cadelinha, pelo meu nordeste, pelos professores em sala de aula sem cuscuz alegado e sem ventiladores, pelo Jiraia, pelo fim dos pikachu laranja, pela volta do Superman com calção vermelho, eu voto pela inclusão do dia do navio negreiro na data de 20 de Abril.

19/04/2016

Adendo: Descobri recentemente (08/05/2016) que o dia 17 de Abril foi a data em que Joaquim Silvério dos Reis traiu e denunciou seus aliados, salvando o Visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, futuro 1º Conde de Barbacena, do golpe. Este iniciou a derrama, acabando com a insurreição independentista. Entrou para a História o governador anterior, o cruel e corrupto Luís da Cunha Meneses, o Conde de Lumiares, imortalizado nas CARTAS CHILENAS, provavelmente escritas por Tomás Antônio Gonzaga: O Fanfarrão Minésio.

9/05/2016