quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O CRIADOR RECUADO: O CASO DO BOTAFOGO


Na história da tática do futebol uma figura tende sempre a aparecer e desaparecer de tanto em vez. É a figura do armador recuado. Vejamos: no antigo 2-3-5 ele estava lá, o central da segunda linha (camisa 5) tinha a função, além da defensiva, de armar as jogadas da linha de frente com lançamentos e inversões, muitas vezes ligando o contra-ataque. No WM (3-2-2-3) este elemento desaparece. O 5 recua para a linha de zaga e cria-se uma terceira linha (8 e 10) antes da linha de avantes. A armação fica por conta destes dois jogadores, que jogavam perto da linha de frente.
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Então veio uma nova revolução, tão importante quanto o próprio WM, o 4-2-4 do Brasil de 1958. A partir do WM, um dos meias defensivos (camisa 4) recua para a linha de zaga, enquanto um dos meias ofensivos (camisa 10) entra na linha de ataque. No meio, ficavam então o 5 e o 8, um defensivo e outro ofensivo. Esta segunda linha tinha a função de defender, mas o 8 fazia a mesma dupla função do antigo central do 2-3-5, armar o time através de lançamentos e passes.
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Foi neste esquema que brilharam, por exemplo, Didi, Gérson (pelo Botafogo), Mengálvio (Santos), Ademir da Guia (provavelmente o maior jogador da história do Palmeiras), e, posteriormente, no 4-3-3, grandes como Sócrates (Corinthians) e Falcão (talvez o maior do Internacional de Porto Alegre), e tantos outros gênios.
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Antigamente, este camisa 8, chamado de meia-armador, jogava, normalmente, sobre a linha de meio campo, na posição do que hoje convencionamos chamar de segundo volante. Vejamos, nesse sentido, dois exemplos tomados dos grandes times do Botafogo da década de 60.
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Escalação do time de 1962:
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Escalação do time de 1968:
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No Brasil esta posição sumirá na formação do nosso 4-4-2. Com o meio em forma de quadrado (2-2), o brasileiro reconstruiu o meio do WM. O defeito maior dos 4-4-2s sulamericanos (brasileiro e argentino) era o imenso vazio aberto nas laterais do campo, com isso abria-se o corredor para o apoio constante dos laterais. Desta forma, fazia-se necessário que ambos os volantes cobrissem a subida dos dois laterais. O passador (camisa 8) recuado sumira, em seu lugar outro destruidor de jogo. A criação de jogadas voltaria para os dois meias avançados, um mais cadenciador – fazendo as funções do antigo meia-armador – (camisa 10) e um ponta-de-lança mais condutor de bola (camisa 7 ou 11).
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Em outros países, no entanto, o 8 manteve-se como criador de jogadas – nem sempre recuado – na constituição de seus 4-4-2s. Na Argentina, com seu losango (4-3-1-2) mediano, o 8 continuava sobre a linha de meio campo, com um destruidor logo atrás, e na mesma linha outro médio com funções defensivas e de apoio, e logo a frente o ponta-de-lança – que lá se chama, muito acertadamente, enganche –. Na verdade, ao invés de trocar o armador por um volante combativo, os portenhos acrescentaram outro. No entanto, a função não é a mesma. Esta posição – em castelhano chamado de carrilero – não é um CRIADOR, e sim um APOIADOR. Muito diferente.
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Na Inglaterra, por sua vez, com seu 4-4-2 em duas linhas ortodoxas, o camisa 8 tem a função de defender atrás, armar o time com lançamentos, e chegar com vontade na frente pra concluir com chutes de média distância. Este jogador de área-a-área (Box-to-box) é criador de jogadas, que se desenvolvem de forma descentralizada. Porém, quase sempre, o Box-to-box é quase sempre mais apoiador do que criador. Em alguns times, a criação fica por conta de um dos wingers.
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Porém, em país nenhum do mundo esta função tem uma nomenclatura tão precisa e simples quanto na Itália: Regista. Isto é, aquele jogador que REGE a transição ofensiva (contra-ataque), REGE a construção, é um auxiliar defensivo, ocupando espaços inteligentemente, interceptando passes, mas, sobretudo, é um passador, REGENDO o time, não um apoiador.   
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Como podemos ver na citação abaixo, a nova formação em triângulo – como no antigo 4-3-3 – dos novos esquemas em maior uso (4-2-3-1, 4-3-3) recria a função de regista. Ressurge a função do passador. O meia-central precisa dar a saída de bola. Ora, se existe um marcador específico para destruir o jogo de bola do criador de jogadas, é necessário que um jogador extra retenha essa bola e desafogue o time:
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This is where the central midfielder gets the most attention, and also the most criticism. The popularity of ‘the passer’ amongst managers owes much to the decline of two-striker formations, with 4-5-1s (more specifically, 4-2-3-1s and 4-3-3-s) favoured. In basic terms, this simply means an extra midfield spot available, and hence the destroyer-creator model was amended to give a destroyer-passer-creator system in the centre of midfield (…). “Receive, pass, offer, receive, pass, offer” is the Barcelona mantra for midfielders.
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(Isto é onde o meia central recebe a maior atenção, e também a maior crítica. A popularidade de “o passador” entre técnicos deve-se muito ao declínio das formações de dois atacantes, com 4-5-1s (mais especificamente, 4-2-3-1s e 4-3-3s) favorecidos. Em termos básicos, isto significa simplesmente um espaço vago no meio-campo, e desde que o modelo destruidor-criador foi ajustado para dar num sistema destruidor-passador-criador no centro do meio-campo (...). “Receber, passar, oferecer, receber, passar, receber” é o mantra do Barcelona para os meias).
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Desta maneira podemos supor que, o central deveria manter a posse de bola. Muitas vezes através de passes curtos laterais, quase sempre inócuos, aparecendo para receber e manter esse sistema de passes. Porém, algumas vezes, o passe longo, invertendo o jogo, ou o passe em profundidade para um companheiro buscam justamente a criação de jogadas com mais ímpeto, na procura por um colega de time melhor posicionado para o ataque. A este jogador, portanto, fica a obrigação do primeiro ou do segundo passe, este qualificado.
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BOX-TO-BOX Vs REGISTA, DIFERENÇAS (?)
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Chamamos a atanção, desta feita, agora para uma questão que seria muito proveitosa para o debate sobre este texto: existem diferenças entre o Box-to-box e o Regista? Se existem quais são? Atrevemo-nos a responder com certa certeza a primeira pergunta: sim, existem diferenças intrínsecas entre as duas funções.
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Complicado, agora, é achar uma resposta para a segunda questão. Embora possamos distinguir a primeira vista um Box-to-box de um regista durante um jogo apenas observando a sua movimentação, difícil é explicar. Acreditamos, portanto, que o Box-to-box tem a necessidade de chegar à frente para impedir o esvaziamento entre o ataque e o meio do 4-4-2. Isto é, faz-se necessário mais o seu apoio ao ataque do realmente a construção recuada de jogadas. Vejamos Gerard – o melhor Box-to-box que eu já vi –, ou até mesmo o jovem Wilshere do Arsenal – que já ocupa esta função tanto no time quanto na seleção –, é necessário que ele chegue até a borda da grande área para concluir, inclusive, no time nacional, muitas vezes Gerard joga como último vértice de um triângulo no 4-2-3-1 ou 4-3-3 armado, raramente, por Fábio Cappelo. Desta forma, ao Box-to-box não fica a obrigação real de criar jogadas, pois, muitas vezes, no 4-4-2 ortodoxo, o meia-de-criação é um dos wingers, sendo que o outro acaba sendo um winger-atacante.
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O que vemos, no entanto, de certa forma em uma crise do Box-to-box, o reposicionamento do meio em forma de triângulo (destruidor-passador-criador). A função, parece-nos cada vez mais relegada ao lateral, que defendendo na sua área, apoia na área adversária (tática individual que só surgiria como NECESSIDADE nos 4-4-2s sulamericanos, que, devido a sua falta de amplitude cria verdadeiros corredores em frente aos laterais que se tornam cada vez mais ofensivos).
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Já o Regista não. Este pode reger o time de posições mais recuadas, sem necessidade alguma que avance em direção à área adversária (embora não seja proibido de fazê-lo). Um caso emblemático é o do grande Pirlo, campeão de tudo com o Milan e Regista da seleção italiana campeã do mundo em 2006. Jogando pelo Milan, o 21 que começou a carreira como trequartista (meia-de-ligação), atuava como primeiro vértice de um losango, posição normalmente ocupada por um jogador mais combativo, que no rossonero era função de Gattuso. Este, destruía as jogadas à frente de Pirlo, a bola chegava, então, mais limpa para seus pés. Ou recebia diretamente da zaga, fazendo o primeiro passe. Esta função individual foi observada, também, em Fábio Rochemback e em outros jogadores pelo jornalista Eduardo Cecconi.
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Porém, o maior regista que eu já vi jogar foi Pep Guardiola, talvez os mais novos não o tenha visto, seu futebol ficou obsoleto no início da década de 2000, obrigando-o a se aposentar muito mais cedo do que seu enorme talento permitiria. Hoje em dia, no entanto, com a grande revolução que ele está criando no seu Barcelona, todos estão assimilando novamente o meio em triângulo – embora a recomposição do meio em triângulo seja devedor do surgimento do 4-2-3-1 – e a sua função de regista (de passador, de articulador recuado) está em alta no momento, o que podemos ver no grande Xavi, que sob a direção de Frank Rijkaard era apenas um primeiro volante reserva, e hoje talvez seja o jogador mais desejado do mundo depois de Messi.
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Tomemos, então, como exemplo a seleção brasileira de Mano Menezes. Há uma predileção natural do técnico pelo Box-to-box do tipo Ramires e outros (Ralf, Jucilei), jogadores marcados pelo shuttle (disparo) em direção à área adversária – basta lembrar dalguns gols da Seleção de jogadas iniciadas por esses shuttles realizados por Ramires, muitas vezes ganhando os combates não com técnica e habilidade, mas na raça e na disposição em dividir a bola (o que também tem sua beleza, uma beleza quase bélica), como no gol de Jádson contra o Paraguai –, em detrimento de volantes-meias (registas) como do tipo de Hernanes – que se cometeu um erro contra a boa seleção francesa, merecia mais chances no time canarinho –.
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CASO EM ESTUDO: BOTAFOGO – 2011
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O Botafogo, desde a chegada de Caio Júnior, vem se adaptando ao 4-2-3-1. Este esquema tático, quase sempre se desmembra num 4-3-3 quando ataca (mais precisamente 4-2-1-3), com os wingers (meias-extremos) se tornando verdadeiros pontas no momento de ataque, deixando centralizado um criador. No entanto, no Glorioso, este desenho se converte, praticamente, num 4-2-4. A linha de meias é formada por meias-atacantes que são incisivos e condutores em velocidade, muito mais interessados em ir em direção ao gol do que em armar jogadas – isto muda quando o meia-central da terceira linha é Felipe Menezes, muito mais enganche do que os companheiros –.
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Contudo, o que nos importa para este texto são a posição e a função dos volantes botafoguenses, a movimentação e opção de meias ficará para outro momento. A dupla da segunda linha chamou a atenção pelo ótimo desempenho, e pelo inusitado também, afinal, do time titular do Botafogo, até agora, aquele responsável pela articulação é o Renato, como já percebeu Cecconi:
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Mesmo na primeira linha do meio-campo, Renato não é um mero volante combativo, protetor do lateral Alessandro. Pelo contrário. Ele é um articulador recuado, marca mas acima de tudo participa da organização ofensiva realizando o primeiro passe e fazendo a passagem para receber. Esta iniciativa do camisa 8 desonerou Felipe Menezes, cuja timidez na partida não comprometeu o time ofensivamente pela participação de Renato e de Maicossuel nos passes”.
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Marcelo Mattos (5) e Renato (8), como apontado por nós em textos anteriores (aqui e aqui), jogam em uma linha diagonal, com Marcelo posicionado bem atrás de Renato. Todavia, este posicionamento do 8 não faz com que ele avance regularmente até a área adversária, ficando quase sempre contido para receber um passe mais atrás ou posicionando-se, inteligentemente, para prevenir o time de um contra-ataque. Muito menos defende de frente a área botafoguense, sua área de atuação é praticamente em cima da linha de meio campo, de onde acelera o jogo invertendo lançamentos para o lateral esquerdo, ou aprofundando jogadas com o lateral direito. Ora, tomemos como parâmetro o jogo contra o Atlético-MG no Engenhão pelo campeonato brasileiro, nesta partida, muitas vezes o 8 encontrava-se à frente de Felipe Menezes, exercendo pressing no adversário.
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Desta forma seria errôneo classificar o segundo volante alvinegro de Box-to-box, ele é um regista, embora muitas vezes tenha atuado assim no 4-4-2 ortodoxo do Sevilha, e outras vezes, chegou a exercer a função de regista neste time espanhol quando atuou como primero 1 do 4-4-1-1 do desenho de 2010 desta equipe – um desenho muito mais próximo do 4-2-3-1 botafoguense –.
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Chamamos atenção também para a tática individual do Marcelo Mattos. Ele é o volante de contenção do Botafogo, o elemento destruidor do trio central – o chamado cabeça-de-área –. Porém é o 5 quem exerce a função de box-to-box da equipe, adiantando-se para a segunda bola (rebote) ofensivo para o arremate de média distância – algo que não lembro ainda de ver Renato fazer no time –, defendendo até dentro da área, quando necessário, e puxando contra-ataques em velocidade, como na assistência genial para o gol de Maicosuel contra o Atlético-MG na partida de ida da Copa Sulamericana.
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CONCLUSÃO
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O momento atual, de resgate do triângulo mediano e da formação de equipes em quatro linhas, acaba dando refôlego ao jogador-passador, que, através de seus passes, poucas vezes objetivos, é o responsável pela posse de bola e sua inteligência tática possibilita interceptações precisas de passes, as duas principais características defensivas dos grandes times da atualidade. Em contra-partida, o Box-to-box clássico vem desaparecendo, permanecendo apenas aqueles que conseguem se adaptar às funções ou de passador ou ao criador do meio – mormente a primeira opção –.
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Mas há um ponto necessário ao debate que não notamos nos argumentos utilizados na nossa pesquisa. O triângulo mediano moderno é quase sempre de base baixa (2-1) assimétrico, salvo raras exceções como o Barcelona ou o Porto, que jogam com triângulo de base alta (1-2) bastante simétricos. Isto é, a função do passador não é exercido mais por um meia, e sim um volante. Destarte, não seria mais acurado chamá-los de “meias-armadores” como antigamente, nem de “volante-meia” como vários jornalistas esportivos hoje convêm chamar por falta de termo melhor (inclusive, o que na minha opinião, é o melhor analista tático brasileiro hoje, André Rocha), e sim, talvez, de “volante-armador”.
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TRIÂNGULOS MÉDIOS: MODELOS EM USO HOJE:
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