quarta-feira, 8 de junho de 2011

O PROBLEMA DO 4-6-0

Em primeiro lugar devemos esclarecer certas coisas: O Barcelona nunca jogou no 4-6-0, não como default, e não lembro nem de uma escalação inicial não-usual, sem atacantes, do time. O Barça joga no 4-3-3, sempre jogou, a não ser por certas épocas circunstanciais, como no Dream Team de Guardiola como volante e Cruyff como técnico, que jogava numa espécie 3-4-3 fluido. Ou durante a presença de Ibrahimovitch vestindo a 9, quando o time flertou certo tempo com o 4-2-3-1 (ou 4-5-1 com W no meio).
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O Barcelona é o maior reduto do 4-3-3 no mundo, até mesmo a Holanda está deixando o seu “único” sistema em favor do 4-2-3-1 (ou 4-5-1 com W no meio), assim como a Inglaterra abandona o seu 4-4-2 em duas linhas (Four-Four-Two, doravante FFT), em favor deste formato de 4-5-1, e Mourinho, o novo grande defensor deste sistema, o 4-3-3, também já migrou para o 4-2-3-1 (doravante 4-W-1), desde sua passagem vitoriosa pela Internationale de Milão, e hoje no Real Madrid.
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Se Messi joga de “falso” 9, isso AINDA faz dele um atacante, a diferença é que não joga como um centro-avante típico como Loco Abreu ou Fred, esperando o passe no comando, mas volta para receber a bola no meio e armar, para que ele dê o passe certo final. Cruyff fez essa mesma função na década de 70 no Barcelona – e no Ajax e na seleção Holandesa –, e Laudrup no Dream Team, até mesmo vestindo, salvo engano, a 9. Além de Messi no meio do ataque, os culé ainda têm os dois pontas – não meias-extremos, se bem que a diferença é muito, mas muito, tênue – David Villa e Pedrito.
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Quando falarmos em 4-6-0 há apenas um grande exemplo prático: Roma de Luciano Spalletti no comando e Totti no campo (2006-7): um Escudeto e uma Copa D’Italia para os Giarorossi. Há flertes pontuais com este sistema, como o testado por Sir Alex Fergusson, quando deslocou Rooney para a extremidade e botou Cristiano Ronaldo no comando – nunca pegou –; ou é o esquema tático de Mourinho quando enfrenta o Barça de Guardiola, novamente deslocando Ronaldo para o comando. A “questão” é: onde realmente pegou, mesmo a Roma ganhando um dos torneios mais difíceis e importantes do mundo – Calcio Serie A –? E o mais essencial: por que até mesmo a Roma abandonou este sistema?
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Primeiro, devemos desdobrar este sistema em quatro faixas para compreendê-lo melhor. Mourinho, por exemplo, testou o 4-2-4-0 para tentar encaixar Kaká no seu time, juntamente com Özil (a linha de 4 seria formada, da direita para a esquerda, por Di Maria, Özil, Kaká e Crisitiano Ronaldo), não deu certo. Quando se fala em 4-6-0 este é o sistema pensado, mas não era o sistema da Roma, ela jogava de 4-3-3-0, 3 volantes e 3 meias – a escalação era: Doni; Panucci, Juan, Mexes, Tonetto; De Rossi, Pizarro, Perrota; Mancini, Vucinic, Totti –, assim como o Real Madrid de Mourinho contra o Barcelona, trocando Benzema por Pepe de volante, e deixando Cristiano Ronaldo (doravante, CR7) no último vértice – a escalação contra o Barcelona era: Casillas; Arbeloa, Ramos, Carvalho, Marcelo; Alonso, Khedira, Pepe; Özil, Di Maria, CR7 –.
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Qual era a grande vantagem daquela grande Roma: o contra-ataque. Jogando com meias-extremos extremamente rápidos, e puxando a defesa para o seu campo, numa linha muito adiantada, a Roma aplicava contra-golpes fulminantes, e Totti fazia muitos, mas muitos gols. Apesar desta virtude, o 4-6-0 tinha um grande defeito: dependia do contra-ataque. O time cedia o protagonismo, e com o tempo, os adversários começaram a se prevenir do contra-piede Giarorosso. Até na Roma o sistema faliu.
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COMO EU REAGIRIA A UM 4-6-0?
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Partindo do pressuposto que meu time jogaria num provável 4-3-3 (desdobrado em 4-2-1-3, não com os meias em linha, como na década de 70, nem com atacantes rígidos, mas os três com muitas responsabilidades defensivas) ou num 4-W-1, eu poderia até levar um susto num primeiro momento, mas o que eu faria?
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Primeiro: adiantar a linha de trás. Para quê 4 marcando 0? E teria que fazer isso rápido, para impedir que meus zagueiros saíssem, de forma desordenada à caça dos meias adversários, afinal, nature may abhor a vacuum, but center backs abhor them even more (natureza pode abominar o vácuo, mas zagueiros o abomina ainda mais), como afima Jonathan WilsonA minha primeira escolha seria adiantar 3 (dois laterais e um zagueiro) deixando um de sobra. Provavelmente essa escolha se mostraria falha, pois o 1 nesta espécie de 1-5-1-3 daria legalidade para os contra-ataques do adversário. E então?
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Provavelmente eu jogaria toda a linha de trás para o meio campo, neste caso, contra o 4-6-0 eu iria de 0-7-3. O meio campo ficaria muito, mas muito confuso. Primeiro teria que observar o desdobramento do meio campo adversário – infelizmente para quem, como eu, não gosta de desdobramento em 4 faixas, se você não faz isso, acaba cometendo falhas trágicas de leitura de jogo, não no aspecto tático em si, 4-5-1 e 4-4-2 ainda são 5 no meio e 4 no meio respectivamente, mas no aspecto estratégico, como os 5 ou como os 4 se comportam. Como explicou Jonathan Wilson, aqui, o desdobramento em 4 faixas é uma NECESSIDADE da nova lei de impedimento, que impossibilita times compactos demais, como a Holanda de Rinus Michels, e o Milan de Arrigo Sacchi –:
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Se o adversário jogasse como a Roma – única experiência que deu frutos –, num 4-3-3-0, eu deslocaria meu time num 0-4-3-3 – a linha de 4 formada por toda a linha de trás, à frente o meio em triângulo, em cima do triângulo de volantes adversário, e os 3 atacantes jogando a linha adversária para trás –. Esta foi a opção de Guardiola contra o 4-3-3-0 de Mourinho, quando jogou a Champions League contra a Inter de Milão em 2010, nesta partida, a última linha do Barça ficava praticamente em cima da divisão do campo, Messi jogou de meia e Piqué – o mais alto do time – de centro-avante. Da mesma forma joga Guardiola contra o Real Madrid deste treinador português, com os zagueiros jogando praticamente dentro do círculo central e Valdés jogando de líbero, na intermediária, afastando as bolas longas.
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Contra o possível – e este sim utópico – 4-2-4-0, testado por Mourinho para ter suas estrelas galácticas (CR7 e Kaká) e os seus meias mais eficientes (Di Maria e Özil) em campo ao mesmo tempo – eu testaria sim, com toda certeza, os 4 em campo, mas jogando com uma linha de 3 na defesa, e 1 no ataque, um 3-2-4-1, ou, nestes tempos que se joga com apenas 1 atacante, um 2-3-4-1, ou, um 2-2-4-2, basicamente o sistema tático que eu havia comentado no texto anterior, o 2-2-1-1, dois na zaga, dois na volância, um na meia, um no ataque, e quatro lateralizados, dois mais defensivos e dois mais ofensivos jogando de acordo com a circunstâncias do jogo, inicialmente no formato de 2-4-3-1 –, o jeito seria recuar mais o volante mais defensivo – no caso, mantê-lo na sua posição original – num formato de 0-5-2-3.
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Mas, o que seria mais horrendo seria imaginar se este 4-6-0 se tornar fenômeno mundial como é o caso do 4-W-1, ganhando Champions League, Copa do Mundo, todos os torneios de grande visibilidade – salvo engano, na temporada 2010-11 pelo menos a Premier League e a Bundesleague foram vencidas pelo 4-2-3-1 –. Imagine-se um confronto de dois times neste esquema, dois times cedendo espaço para o contra-ataque, sem protagonismo.
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O pior seria, ainda, o processo natural, com nenhum time não necessitando da linha de 4 atrás, jogam-se todos os atletas para o meio, num mais utópico ainda 0-10-0!!!!!!! Até que surgisse um “gênio” e pensasse: “Ora, se eu recuo o atacante para a meia no intuito de confundir a zaga, por que não adiantar um meia para confundir a marcação dos volantes”? Parabéns, este “gênio” teria acabado de “inventar” o atacante!
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Mas aí é de se pensar: se não havia linha de 4 atrás, este atacante sempre estará em impedimento? Não. A defesa sempre é reativa ao ataque, se um time avança, o outro recua – qualquer passe para trás ou na mesma linha não existe impedimento –, se neste avanço eu deixo lá um atacante, dois, três atacantes, o adversário será obrigado a deixar também defensores para marcá-los – na lógica moderna, pós-58, a quantidade de atacantes + 1 de sobra –. Principalmente com a lei mais brilhante – de “gênio”, afirmou Jonathan Wilson aqui  – de impedimento já criada, e por conseguinte do futebol – o futebol em si, é um resultado desta lei 11, a do impedimento –: o impedimento passivo. Eu posso ter um atacante lá na frente esperando, a bola pode ser passada para frente e este permanecer inativo, um outro jogador partindo de trás pode pegar esta bola e assim dando condições ao atacante, que estaria completamente livre para marcar.
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Por isso hoje joga-se em 4 linhas, para impedir justamente que este jogador se posicione de forma a abrir a defesa, por isso o FFT do Milan de Sachi, mesmo sendo um dos maiores times de todos os tempos, hoje teria problemas com os passes diagonais dos meias, pois teria que enfrentar um time com um enganche entre as duas linhas de 4, e atacantes espetados com a bola e sem ela de marcação firme à saída dos laterais – por isso é tão comum hoje, defensivamente, o 4-5-1 com volante flutuante entre as linhas de 4, ou 4-1-4-1 –. Tanto que, mesmo com toda a pressão ofensiva bleugrana, o Barcelona mantém zagueiros fixos, atrás da linha central, com um volante e os laterais sobre ela, para impedir justamente que um atacante se posicione de forma a se beneficiar da interpretação do impedimento passivo.
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CONCLUSÃO
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Não existe no futebol, lugar dominante para o “0”. A Roma provou ser possível ser campeão assim, mas a Roma tinha Totti, meia de técnica apuradíssima, alto, de ótima finalização, e dois meias muitos rápidos para os contra-golpes, sem esta combinação de fatores, o time teria naufragado. E mesmo a Roma não resistiu.
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Outro exemplo, caríssimo a mim, foi o Botafogo campeão de 1989. Ora, o leitor poderia afirmar, principalmente depois de ter visto o vídeo de Valdir Espinosa explicando como jogava o seu Botafogo (aqui), que o time jogava no 4-4-2 em losango e com pontas, assim como o Vasco dos últimos anos do presidente Roberto Dinamite, que perdendo a explosão foi recuado para armar o time como um ponta-de-lança. Um 4-3-3 com falso 9, diria um leitor de hoje em dia. No Botafogo não foi diferente. Abdicou-se do 9 pois tínhamos o Paulo Criciúma, meia de ótimo cabeceio, e artilheiro nato, fez exatamente a mesma função de Forlán (vestindo a 10) na seleção Uruguaia da Copa do Mundo de 2010, no papel um 4-3-3, com os pontas Cavani (nº 7) e Suarez (9), avançados e o 10 voltando para armar, na prática um 4-3-1-2. No Botafogo de Espinosa, os pontas – Maurício na direita e Gustavo, ou Jéfferson, ou Mazolinha na esquerda – tinham muitas obrigações defensivas, pois os laterais, sobretudo do Flamengo e também do Vasco, eram demasiadamente ofensivos, ora, hoje muitas vezes lemos os pontas com grandes obrigações defensivas como meias-extremos.
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Pautado em todas estas observações não seria sacrilégio – como já se tem feito com a seleção brasileira de 70, um 4-3-3, e a de 82, um 4-2-2-2, serem vistas hoje como 4-W-1’s, principalmente a de 82, pois Éder, ponta-esquerda, defendia muito, para compensar a extrema ofensividade de Júnior, lateral esquerdo – ver este Botafogo de 89 como um 4-3-2-1, sendo os pontas meias-extremos e Paulinho Criciúma falso 9, ou ainda mais, ler este time como um precursor do 4-3-3-0. Também não durou, o time logo voltou ao 4-3-3.
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Todas as experiências feitas, de resultados vitoriosos, muitas vezes bonitos de se ver, mas infrutíferos, sem grandes legados táticos. A própria Roma, que será sempre creditada como mãe do 4-6-0, não foi planejada, Luciano Spalletti, o pai deste esquema, viu-se sem centro-avante e foi obrigado a colocar Totti para jogar nesta posição, como último homem mais adiantado do que seria um 4-5-1, com o retorno do atacante, ao invés de ir para o comando, foi adaptado à extrema esquerda, o que acelerou muito mais os contra-golpes e os deixou mais fulminantes, com um finalizador puxando-os.
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E respondendo as minhas próprias questões: onde realmente pegou o 4-6-0, mesmo a Roma ganhando um dos torneios mais difíceis do mundo – Calcio Serie A –? Mesmo com todos os flertes de treinadores de ponta, como Sir Alex Fergusson e José Mourinho, em lugar nenhum do mundo. Até o Flamengo tentou isso em 2011 pela falta de centro-avantes bons, Luxemburgo desloca Ronaldo Assis para o falso 9, que apesar de ter feito um gol de cabeça jogando nesta posição, não pegou.
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A segunda e mais importante questão: por que até mesmo a Roma abandonou este sistema? Como isso merecia um estudo de caso muito mais profundo por quem acompanha este time assiduamente, acredito que a falta de protagonismo tenha pesado nesta grande equipe – isso sempre acontece com clubes grandes que se tornam reativos demais –, mas, o que acredito ter sido decisivo, foi que a surpresa passou, todos aprenderam a jogar contra o sistema, barrando o avanço rápido dos extremos, e cedendo poucos contra-piedi, além da marcação à Totti ter crescido, único protagonista, neste time de coadjuvantes. A solução a todo esquema que fica “marcado” e não é fluido suficiente para se mover – normalmente todos os times de contra-golpes acabam sendo rígidos demais, mas não é por lei que o sejam – é mudar, e a mudança foi simples, colocar um atacante na frente para que seja protagonista também, ao lado de Totti, e empurrar a marcação para trás, dando liberdade ao príncipe de Roma.
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Parece-me, então, que o 0, como é nulo, como nada, está marcado para não encontrar espaço no futebol, esporte marcado pela ocupação de espaços – os números que dão nome aos sistemas táticos dizem apenas onde encontramos, inicialmente, os jogadores, o espaço que eles ocupam no gramado, nas zonas do campo –. No entanto, ressalto que, como estratégia, desocupar espaço X para que o jogador A se movimente em velocidade para ocupar o espaço aberto, é básico no futebol – não vou nem citar a movimentação de recuo de Messi no centro para a incursão de Villa da esquerda para o meio, mas vou lembrar a seleção brasileira de 70, que Tostão, o centro-avante, abria à esquerda para que Pelé aparecesse no meio, ou O 10 recuava, Tostão centralizava, e o meia Rivelino aparecia na ponta-esquerda da área, ou Jairzinho Furacão cortava da ponta direita em diagonal para o centro da área, abrindo espaço para as investidas do lateral Carlos Alberto, etc. etc. etc. –, e uma das estratégias mais vitoriosas, eficientes, e estéticas do futebol.
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Mas ocupação de espaço é o OPOSTO ao 0, toda vez que o 0 se forma alguém tem que preencher aquele vácuo, daí vermos os defeitos inerentes aos esquemas táticos – isto é, a como uma equipe ocupa os espaços do campo – como sendo as zonas vazias de jogadores – por exemplo, o 4-W-1 tende a isolar o centro-avante, isto é, a deixá-lo cercado de 0, obrigando-o a uma movimentação constante em direção ao trio de meias, como também ao avanço constante, e em bloco deste tridente, em direção à área –. Desta forma o 0 do 4-6-0 é inerentemente um defeito do sistema, ao mesmo tempo que é sua principal característica, sua virtude essencial.
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É uma das leis máximas da natureza (ao lado do “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”): onde há vácuo que ele seja preenchido pela matéria que está por perto. Ao esvaziar conscientemente uma zona, o técnico pede ao adversário que a ocupe, normalmente cobrando o contra-ataque pela cessão do campo, mas correndo todos os riscos inerentes à estratégia aplicada.
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Para saber mais sobre o Roma de 2007, leia aqui, no blog Zonal Marking