sexta-feira, 24 de junho de 2011

OLHARES E OFENSAS, (MAIS) UM CASO DE RACISMO NO FUTEBOL

Este texto é uma resposta ao ótimo texto publicado no blog Três Toques, especializado em futebol, que analisa a ofensa que o jogador brasileiro Roberto Carlos sofreu na Rússia, quando lhe foi atirado duas bananas em jogos diferentes pelo clube - na verdade a primeira lhe foi oferecida quando entrava no vestiário e, nesta semana, lhe foi atirada outra durante o jogo -. Observamos a situação por ângulos diferentes - provando que os fatos não são assim tão "não-argumentáveis", há sempre formas de INTERPRETAÇÕES diferentes dos mesmos -, mas concordando com o mesmo ponto principal, a raiz do problema é sócio-econômico. Quem quiser entender melhor, sugiro visitar o sítio do Três Toques, que além do mais, traz o vídeo sobre o acontecido. 
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devo discordar de alguns pontos (do texto publicado no blog Três Toques).
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Como mestiço - filho de uma negra com um branco -, como nordestino, como brasileiro, como ex-militante de movimentos negros - dos quais saí por discordância ideológica -, como escritor e pesquisador em literatura - estudioso do sertanismo brasileiro -, entendo muito bem o que houve.
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Em nenhum ponto suas argumentações se tornam equivocadas, pelo contrário, acredito nelas. O foco no entanto diverge, ao afirmar: "A banana é uma fruta, não é apenas uma fruta, ao redor dela uma série de significados foram construídos" o autor comete um acerto primoroso em relação ao tema, mas não aborda estes diversos significados, como a Análise do Discurso sugeriria.
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Esquece-se o autor do significado de "comedor de bananas", isto é, "macaco" - embora a maioria dos macacos não comam bananas, mas frutos em geral dependendo de sua região de origem.
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A xenofobia europeia é amplamente conhecida, antes e pós-Hitler. O que dizer da guerra dos Balcãs nos fins dos anos 90?: "Limpeza étnica"! O problema não é contra os negros em si, mas os não-caucasianos.
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Neste sentido, sua análise mostra-se primorosa, o problema é sócio-econômico, contudo, TODOS os problemas da humanidade são de raiz sócio-econômicas, umas de observação mais direta (fome, por exemplo), outras de observação mais profunda (como o caso de racismo, ou das guerras dos americanos no Oriente Médio).
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Outro ponto, no entanto, não abordado é a quebra da frase: "'O Roberto Carlos nem é negro… então como isso pode ser racismo?'".
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Os Estados Unidos, país reconhecidamente racista, que vem de lutas seguidas desde a década de 60 para igualitar os direitos civis, e que até hoje possui sua Ku Klux Klan, há a noção de "one drop blood" (uma gota de sangue). O que importa não é a cor da pele, e sim se o sangue é "puro". Qualquer miscigenação é vista como "não-branco", não importando o quão clara é a pele do indivíduo. (Noção que o movimento negro brasileiro adota e da qual sou extremamente contra, afinal seria negar o meu pai e toda a minha família de olhos azuis.)
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Assim, meu filho, cuja mãe é branca, filha dum louro de olhos verdes - o que no nordeste chamamos de "galego", em relação aos povos ruivos da Galícia, ao norte de Portugal - seria negro, mesmo sendo branquinho branquinho - de lindos olhos castanhos como a mãe -.
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Aplica-se essa noção de sangue "não-puro" a todo brasileiro; dificilmente um de nós seria visto como caucasiano em muitos lugares do hemisfério norte. Muito mais alguém de pele escura - a nossa tão bela tez castanha - como Roberto Carlos, mesmo que para nós ele não seja "negro", como afirmaríamos tão facilmente sobre Eto'o, Maicosuel, ou Lázaro Ramos, compare-o diretamente a qualquer russo, e perceberemos o quão ele é DIFERENTE.
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É racismo sim, descriminar alguém cuja origem étnica é DIFERENTE. Sexismo quando o sexo é DIFERENTE. Homofobia quando o gênero - ou "opção" afetiva-sexual - é DIFERENTE. Xenofobia quando a origem geográfica é DIFERENTE - por exemplo as migrações de regiões mais pobres da Europa para centros mais ricos, ou de nordestinos para o Sul -.
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Roberto Carlos é o diferente e ocupa uma situação de sucesso, ganhando muito mais dinheiro que um russo normal, assim o ÓDIO gerado pelo momento sócio-econômico - a raiz de tudo - toma forma pela AVERSÃO ao que se mostra DIFERENTE. Se, Roberto Carlos fosse mulher, seria o seu sexo que seria atacado, se ele fosse gay, seria sua afetividade. Mas não, ele é brasileiro, e se, "vem da selva amazônica sulamericana", deve ser um "macaco".
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Abraços, e ótimo texto.