terça-feira, 3 de maio de 2016

COMO VAI?

Quis dizer que estava misérrima, lúgubre, paupérrima de elã e libido. Mas como sem palavras? Dizer: “muito triste”, é condescendência, o que é muito triste, o quanto é muito triste? Com o quê comparar, com quem comparar: consigo mesma ontem, anteontem?; com a colega de serviço e sofrimento?

“Infeliz”? É o mesmo que dizer: “Viva”. Feliz é a busca nunca alcançada da vida. É como que quisesse aparecer. Só diz que está infeliz quem tem preguiça de continuar: “Vou acabar o casamento”, disse o noivo, “estou infeliz”.

É a desculpa vaga para quem se cansa de viver e não tem coragem moral da alternativa. Infelicidade é respirar.

Para comunicar são tão poucas as palavras necessárias que podemos contar-lhes as sílabas e mal chegamos as centenas.

Mas a expressão exige mais, muito mais, para encontrar a radicalidade íntima da alma ou para analisar a complexidade intrínseca do universo. Só as palavras, todas as que existem, ainda não bastam.

E que fazer ela, que não tem nenhuma? Ou tão poucas quanto a negatividade, incapaz de conjurar antônimos ou de enfatizar com jogos sinonímicos?

Como expressar esta dor, este sofrimento, como manipulá-lo em fonemas pronunciáveis? O que pode fazer?, sofrem menos os que não podem dizer a sua própria aflição, ou são obrigados a engoli-la por completo porque não a transformam em consciência?

Então estes sofreriam em exponencial? Sofrem porque vivem; sofrem porque não podem ejacular, em palavras, o sofrimento; sofrem porque a represa aperta e pesa; e sofrem porque não sabem que podem se libertar do sofrer e continuam consigo sem jamais sublimá-lo.

Pois a alma é a narrativa do que vivemos e o espírito é o comentário que fazemos do que percebemos do mundo.

Ela como que olha dentro de si mesma procurando se tem alma ou espírito, mas como rememorar os detalhes de si, daquilo que tem de mais profundo e secreto?; como compreender os mistérios da realidade, entender os intrincados mecanismos empíricos?; quando não há vocábulos corretos ou aproximativos que lhos revelem?

Qual o tamanho de sua alma?

Qual o alcance de seu espírito?

Se toda a sua autoconsciência e a sua consciência do mundo, se todo o seu Nada, não têm escopo, se o corpo do ser são só palavras?

Sem palavras, como traduzir o seu infinito para o ínfimo do seu Eu?

Era como tentar traduzir a divindade absoluta em termos humanos e mal alcançar analogias biológicas.

Era como acreditar que o ser supremo tivesse realmente mãos, barba e pênis, porque era incapaz de configurar em palavras o absoluto, o supremo, estes abstratos, e focalizasse sempre na imagem do macho-pai, do macho-marido, sempre no “o”, no “o”, sem entender realmente, porque suas palavras são poucas para realizar o muito, que todas as palavras são poucas para contemplar o todo.

E tão vasto era o seu dentro, tão grande e potente era sua paixão.

Mas, para ela, paixão era o beijo cênico, o sexo mal filmado, de um açucarado casal cissexual sem sal, representados por atores canastrões em uma telenovela mal escrita, cujo enredo enfadonho e maçante é o mesmo desde sempre, desde que ela era pequena e via novelas na tevê com sua mãe, e sempre será, para amordaçar e entorpecer a sua mente, numa emissora midiática manipuladora e canalha que controla as finanças, a política, os interesses, os corações desse subcontinente subdesenvolvido.

Por isso não entende quanta paixão tem em si, quanta flama resplandescente fulgura-lhe internamente, que lhe corrói como pirose, que lhe angustia, que lhe é uma cintilação vicejante.

Nesse sentido, quando a questão mais importante que um ente pode fazer a um ser para que este encare a momentaneidade de sua realidade objetiva e a totalidade de sua subjetividade afetiva; na hora mais certa que este mesmo ser precisava encarar decisivamente a problemática da sua existência; exatamente quando mais se precisava de empatia, de compreensão alheia, de aproximação amorosa – pois o momento oportuno é a única chance, a única sorte, o único milagre que há no Universo material em que a entropia governa as causas e efeitos –; tudo que ela pôde fazer foi contorcer um sorriso mentiroso com o corpo todo, olhar com um olho o chão e com o outro procurar esconder-se no céu, e responder tão somente:


– “Eu vou indo”.