sexta-feira, 2 de setembro de 2016

UMA LIÇÃO DE ESPERANÇA

Por que toda esta tristeza
Quando vê o quê tua mão
Frutificou? Tem certeza:
Merecemos nosso pão!

É a vida quem afiança:
Uma lição de esperança.

Não distribua sorriso
Vazio para o desespero.
Tu pisa onde também piso
Pra frente, juntos, com esmero.

É a vida quem afiança:
Uma lição de esperança.

Se furtam nossos direitos
Se compram tua vontade
São sempre os mesmos suspeitos

É a vida quem afiança:
Uma lição de esperança.

É preciso ter coragem
Para não perder de vista
Da vida esta aprendizagem
Tão certa quanto imprevista.

É a vida quem afiança:
Uma lição de esperança.


Thiago Ribeiro 

02/09/2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

DANTE ANALISA O GOLPE PARLAMENTAR BRASILEIRO

Neste  dia, o recado é de Dante, Divina Comédia, Inferno, Canto 32, Estrofe 32: No 9º círculo do Inferno, congelados por Satã, estão os traidores da Pátria. Ao ser reconhecido por uma alma, interpela-a o poeta para que possa legá-la para História, responde o pecador:

"'Só quer o olvido quem te fala' exclama
'Vai-te! De sobra já me estás molesto.
Aqui não cabe da lisonja A TRAMA.'"(grifo nosso.)

Os traidores da pátria quererão ter "olvidada a lisonja dA TRAMA", mas nunca os esqueceremos, nossas palavras vão convosco. Os Poetas, demonstra Dante, não perdoam.

No Inferno, congelados por Satã, Dante ouve um traíra delatar outro: "'Ouro chora, que a França lhe há doado" (Inferno, Canto 32, Estrofe 39). Vendem, pois, a pátria para o capital estrangeiro. Por fim, congelado pelo vento satânico, o criminoso confessa os crimes de lesa-pátria:

"'Se perguntarem quem aqui mais era (...)
A quem Florença degolar fizera'"  (Inferno, Canto 32, Estrofe 40).

Por ouro, por vantagens próprias, sangraram, mataram o país em que nasceram. Eis, portanto, a vossa pena, se creem em Inferno ou não. Para sempre tentarão olvidar o crime de lesa-pátria que ora cometem, para sempre, os lembraremos que nos venderam pelo ouro estrangeiro.

31 de Agosto de 2016

domingo, 17 de julho de 2016

PONTA DE SABRE

Ponta de Sabre
             é curva

Ponta de Sabre
       lambe as carnes
                em lépidos
                         talhes

Ponta de Sabre
            fende racha quebra
                     crânios
          encalacrados

Ponta de Sabre
             é minha
                língua

segunda-feira, 27 de junho de 2016

CORPO EXTENSO

meus ossos
eu não os vejo
mas sinto 
que interagem com a gravidade
e me tornam
um corpo extenso no espaço

minhalma
eu não a vejo
mas sinto 
que interage com a gravidade
e me torna
um corpo extenso no tempo

POR QUE HUMANIDADES?

Por curioso que possa parecer, foi um filósofo, o iluminista escocês do século XVIII David Hume, quem propôs que as escolas públicas não deveriam ter ensino de Humanidades, mas apenas o que fosse necessário para a formação de um bom trabalhador ou de um bom burguês.

De certo, as Humanidades não inventam máquinas ou constroem pontes, como as engenharias, não ensinam a fazer pólvora nem remédios, como a química e a biologia podem ensinar.

Então para quê ensinar Humanidades se não servem para a humanidade? Perguntam-se os pensadores liberais desde os Setecentos até hoje. Os conservadores responderiam: para incutir, nos jovens, valores morais que servem de base clássica para tradição da nossa sociedade.

Humanistas progressistas responderiam simplesmente: o valor de se ensinar Humanidades na escola pública está no próprio ato de perguntar o Por quê de se ensiná-las, ensinar qualquer coisa, ou até mesmo, o ato fundador de perguntar, tão simplesmente: por que.

As exatas (engenharias, químicas, biológicas, filhas todas, de certo grau, da matemática) são cheias de respostas, de resultados, onde não há erro, no máximo aproximação e arredondamento. As Humanidades (descendentes que são da filosofia) só têm perguntas. Uma ensina a encontrar soluções, outra a formular questões.

Humanidades constroem pontes e estradas entre pessoas, curam, não os corpos, mas as almas de nossos traumas, vencem guerras com a força da pena. O poeta Paulo Leminski caracterizava a poesia como um inutensílioi:

A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê.

As Humanidades ensinam-nos a ser humanos, a ordenar o caos de nossa psiquê, a compreender melhor a organização de nossa sociedade e o nosso lugar como sujeito dentro da comunidade a qual pertencemos.

          Porque a palavra é ideologia, o que se diz revela o que se pensa e de onde se pensa, “as declarações”, escreve Mikhail Bakhtin, “são a arena de uma luta desesperada com a palavra do outro em todas as esferas da vida e da criação ideológica”, e complementa afirmando que “todo ato essencial [do homem social] é interpretado ideologicamente pela palavra ou diretamente encarnado nela”ii.

             Desta forma, as obras de arte voltam-se para dor, para o sofrimento, pois um humano só pode ser conhecido por outro ser humano através deste mesmo sofrimento. Por isso, como ensina o mestre Antonio Candidoiii, a literatura, ao mergulhar na radicalidade do ser, confirma em nós a nossa humanidade.

            Na alegria, no prazer, não somos compreendidos, não há amigos de verdade nestes momentos, porque neles há só solidão. Compaixão e empatia existem apenas quando nos colocamos no lugar do outro, tentamos entender a sua dor, e a arte, ao colocar-nos no lugar das personagens, dentro de suas mentes, ensina-nos a nos colocar de outras pessoas, tentar pensar como elas.

           As Humanidades, portanto, mostram-nos como questionar o mundo que nos envolve, dissolver as certezas e procurar o nosso próprio caminho, mas, acima de tudo, como ser um ser humano melhor, tanto como pessoa – organizando a nossa alma – quanto como cidadão, desvendando-nos a forma de interagir-nos com os outros.

i A fala de Paulo Leminski sobre a poesia pode ser ouvida aqui: .

ii BAKHTIN, Mikhail. A pessoa que fala no romance. In: -----. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernardini et alli. São Paulo, HUCITEC, 1988.


iii CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: -----. Vários escritos. 3 ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

SONETO

Ser amado é permitir
A si ser transfigurado
Por Outrem sem se partir.
     Só o tolo fica apegado,
     Neste mundo do Devir,
     Ao que era no seu passado.
Tudo muda, há de cair,
Este é o verdadeiro fado:
O que é corpo vai sumir.
        Amar, por exemplo dado
        Nos gestos, palavras: pôr
        Em evolução o Amado.
Ama quem dá do melhor
Pro Outrem também melhor for.

domingo, 5 de junho de 2016

CAMAÇARI

bilhões de bolhas de sal efervescem-se sobre meus pés
meus filhos medem seus pés
pelos meus passos
minha cachorrinha
enfia suas garras na fofa areia umedecida
todos os pelos do meu corpo
pin-
      -gam
meço meus pés pelos passos dos meus filhos

05/06/2016