sábado, 2 de julho de 2011

NÃO CHORO POR TI, ARGENTINA

Jogar mal é sempre uma opção, sempre. Incompetência não. Na sua estreia em casa a Argentina foi extremamente incompetente na abertura desta Copamérica em casa, não era um time jogando mal, era um time cheio de erros.
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A Espanha foi campeã do Mundo perdendo o primeiro jogo. A Alemanha de Beckembauer (1974) foi campeã perdendo o primeiro jogo, assim como a Inglaterra de Bobby Charlton (1966) estreou muito mal. Mas em todos os casos eram times prontos, com propostas de jogo muito bem definida e que jogaram mal. Jogar mal, afinal, é sempre, sempre uma opção.
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Cometi um erro também, ao acreditar que o “Novo-Verón” Banega seria capaz de fazer a ligação, “enganchar” o meio e o ataque. Não só foi incapaz de fazê-lo como foi o protagonista do gol boliviano ao tentar matar uma bola fraquinha – desviada de calcanhar pelo brasileiro naturalizado boliviano Edvaldo numa cobrança de escanteio – e deixá-la passar lentamente sob seu pé esquerdo.
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A Argentina se desesperou, a hinchada emudeceu – não achei que eu NÃO fosse ouvir a hinchada portenha – e o time que já vinha mal, piorou. No primeiro tempo, sem o enganche – o que me deixa incrédulo, afinal país nenhum do mundo produz mais enganches que a Argentina, até nós, brasileiros, andamos importando os homens de ligação de La, vide Conca e Montillo – a obrigação era toda de Messi de fazer o passe vertical e diagonal para Lavezzi e Tévez.
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Esperava-se a Argentina jogando o futebol do Barcelona, o desenho era idêntico, mas não era funcional. O Porto joga neste desenho, mas ele tem Guarín, “8” clássico, que sabe defender, mas principalmente dar o passe vertical e diagonal que se precisa. Barcelona joga com um triângulo de base alta no meio, mas não com 3 volantes como no desenho portenho, e sim com 2 meias. O mais importante deles, no entanto, é Xavi, fazendo este papel de “8”, responsável por este passe. Messi volta, no seu papel de falso nove, buscando o jogo para a infiltração, auxiliando neste passe, mas nunca é o responsável direto – ou único – por ele.
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No primeiro tempo o super-craque (gênio?) argentino foi até bem, fazendo fila, deixando os pontas em situação de marcar, mas nenhum deles foi competente o suficiente para fazê-lo – o passe que Tévez recebeu é sintomático, numa jogada praticamente idêntica ao primeiro gol do título santista da Libertadores, Neymar foi capaz de marcar, Tévez não –.
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No segundo tempo foi pior, com o time modificado e Di Maria no lugar de Cambiasso, a Argentina passou a ter um desenho que, para mim, ficou indefinido: seria um 4-2-4 ou um 4-2-1-3, com Messi de enganche? A reposta para esta pergunta é simples: seja qual tenha sido o desenho, Tévez tirou o espaço de Messi e Batista matou o 10. Dos quatro fundamentos mais básicos do futebol (marcação, passe, drible e finalização) Messi é acima da média em três deles (marcação não é bem o seu forte), na posição que passou a jogar no segundo tempo foi alijado de dois para concentrar-se só no passe. Longe da área, sua capacidade de finalização era inútil, e encaixotado dentro da segunda linha de quatro boliviana, sempre com marcação dupla antes de chegar na bola, o drible era impossível – talvez, ali, só Garrincha –. El 10 fez bem sua função exigida, deu passes, distribuiu o jogo, não se escondeu, mas não foi Messi, e não tinha como ser.
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Para Messi ser Messi ele tem que jogar na FUNÇÃO de Messi, não na POSIÇÃO de Messi. Messi precisa de um auxiliar no passe (um Xavi, ou um Iniesta) e um auxiliar na finalização (seja ele um Villa ou um Eto’o). Faltou isso na seleção. E quando Batista teve a chance de consertar seu erro aumentou-o, empurrando Tévez para o centro da área, tirando todo o espaço para a progressão de Messi.
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Por outro lado as entrados foram ótimas, Di Maria deu velocidade e contundência na esquerda que Tévez não conseguiu dar. Na direita, a entrada de Agüero no lugar do péssimo Lavezzi diminuiu a velocidade do time, mas aumentou a qualidade. A albiceleste só foi perigosa realmente nos cruzamentos certeiros de Angel Di Maria, e inclusive duma delas saiu o gol portenho, o 7 recebeu o passe do bom lateral esquerdo, levantou a cabeça e botou no ótimo Zanetti, que poderia ter cabeceado direto, matado e chutado, mas não, deu uma assistência linda de peito para Agüero fuzilar num belo voleio e empatar o jogo. É incrível que mesmo com a idade, o galã da camisa 8 ainda tenha aquele fôlego todo, sem falar da qualidade técnica incontestável, e fico imaginando por quê não foi pra Copa do Mundo!
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A ausência de um articulador central foi tão sentida que na maior parte do jogo, mesmo com domínio de posse de bola superior a 60%, o time argentino jogava à base do chutão, isto é, para quem tinha o modelo catalão, de passes curtos, indo e voltando, o tique-taca, e acreditava que poderia ser implantado sem maiores ressalvas na realidade do toco y voy portenho – o que eu ainda acredito – os chutões é um desperdício de posse, é uma falta de criatividade. Para piorar, o grau de nervosismo após os 30 do segundo tempo estava tão alto que Gabriel Milito, não muito conhecido por sua técnica, começou a jogar de líbero, vindo de trás e ELE armando o jogo com avanços progressivos em velocidade e passes curtos e diretos. Onde estava o enganche argentino? Estava no banco e atendia pelo nome de Pastore.
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Mantendo mesmíssimo desenho, Pastore poderia entrar muito bem na vaga de Banega, afinal, para quê três volantes se, na maior parte do tempo, o 5 (Cambiasso) encontrava-se à frente de Messi, para quê três volantes se Banega sempre carregava a bola para fazer a ligação à frente. Dê-se essa função a quem de direito.
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E fico me questionando. Para que tantos atacantes e tantos volantes se a grande peça argentina sempre foi o enganche que está ausente da seleção?
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Será Batista o Dunga deles?