sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SONETO

Na vida sofrer é certa fortuna
Cada grão de si, cada amanhecer
É novo afã, é nova fina duna
          Onde prender o pé, lá se perder,
          Onde endoidecer, onde não chorar
          Onde se calar, nunca mais volver.
Mas é loucura pura reclamar
Como pássaro que canta por não
Voar, tal peixe que afoga no mar.
           Eu reconheço minha condição
           Humana; minha grande e vã vaidade:
           Ser peregrino dessa solidão.
A essência de viver, sua verdade,
É a busca eterna por Felicidade.

CAFÉ

Passa-me um café,
                          Faz favor,
Preto
                         Como olhos,
Forte 
                          Feito a fé,
Amargo 
                          Feito a vida,
Quente
                          Como o amor.

Para que eu possa
                              Nele
Mergulhar
Me erguer
                Me perder
                Me achar.

SONETO

Meu coração não sabe, não identifica
Que o que tanto deseja pode arrebentá-lo.
Pois o desejo é sopro que na fina e rica
           Membrana da alma bate em fortíssimo abalo,
           Em sucessivos danos, com constante empenho
           Até que estoure toda e fique como um ralo:
Neste vazio buraco escorre quanto tenho
De sonhos, de desejos, de fé por qual rogo
Encolhendo-me. Mas meu coração é lenho
           Que não se reduz face a qualquer fraco fogo;
           Meu coração, na dor martelado, esquivanças 
           Conhece, com artimanhas produz desafogo
Que a dor não compreende: cheio de mudanças,
Pois a alma é colcha de retalhos de esperanças.