quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CÍLIOS E SORRISOS

Meu coração engrandece
Quando ele encontra os teus olhos
Fulgurantes sob montanhas
De cílios e de sorrisos

REMENDO DE ABISMOS

eu remendo os meus abismos
não me perderei
nem no Paraíso de Borges
que é mais místico do que o de Dante

em cada borda destes precipícios
está Eu
tentando ouvir do fundo
as vozes que me escapam

mas não me perderei
mesmo flertando com os meus abismos
mesmo sem ouvir as vozes de mim mesmo
ainda assim vejo o Outro Eu

um ao outro se apontam
como bússolas de braços fendidos
guiando o que me sobrar de vozes
neste mapa de remendos de abismos

domingo, 26 de agosto de 2018

SONETO

Cante para mim, meu bom Rouxinol,
E traga vida para esta tristeza,
Tua voz é fragmento do meu Sol.
      Teu canto voa, guia da Beleza,
      Meu corpo te ressoa sem espanto:
      Flauta que vibra em êxtase de reza.
Por esta voz que cantas, eu me encanto
Por cada canto vais, tua voz fica
E eu soçobro sem meu doce Arcanjo.
       Cante para mim, minha jovem amiga,
       Enquanto os anos chegam-me raivosos
       E, da cicatriz, reabrem a ferida.
Cante para mim versos amorosos,
Cante até que separem os pés nossos.

12/09/2018

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

ANAMNESE

eu que serei teu último amante
engenheiro de tua terra arrasada
sou como quem não tem memória

eu que terei a chave de teu corpo
para guardá-lo longe de todos os olhos
sou como quem sempre esquece

meu amor é um céu em festa
e tu és sempre nova num mundo repetido
sou como quem nunca lembra

o que é o passado para quem se perde?
o que é a dor para quem sempre nasce?
sou como quem sempre te reconhece
e finalmente dá por si

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

MEU AVÔ

Meu avô era fundidor,
mal grado Cabral, um artista:
esculpia na madeira fofa todas as peças das máquinas da Usina,
na areia endurecida com água
a forma fazia
e fundido o ferro líquido ou bronze
a peça nova
  fumegante formava-se e saía
vermelha de calor
na precisão serena
da força de seu ofício

quarta-feira, 18 de julho de 2018

INSÔNIA

Meus olhos insones
           famintos por te ver
           cansados de esquecer
os sonhos insonhados
das noites acordado
nas trevas observados
            pelas sombras do amanhecer

És o fim da madrugada
o cansaço do dia
a perturbação da memória
os ecos dos requalques

Meus olhos insones
           semiacordados
           hipnotizados
pelo resto de tua lembrança
pelos cacos das saudades
           apavorados
por outros olhos
           que não podem ver

terça-feira, 12 de junho de 2018

FÁBULA DO JUIZ E DO RÉU

Era uma vez lá longe em
País de São Saruê

Um juiz que condenou
Com tanta convicção
Que a pena aumentou do réu.

Assim, disse esse juiz
Ao seu destemido réu:
"Solto-te amanhã se tu
Me prometer, com papel
Assinado e carimbado,
Com esse povinho jamais
Tu nem sequer se meter
E nunca mais liderá-los."

Sem precisar nem pensar:
"Sentenciou, o Magistrado,
Num tribunal de seus pares,
Não num júri popular.
E não quer que eu me submeta
Ao siso dos meu iguais?

Mas se o Sr. Magistrado
Tem provas de qualquer crime
Por que negociaria comigo?

Fatos não se negociam.

Se comigo faz acordo
É porque vê o criminoso
Aprisionado nas barras
Da moldura especular.

Se sabes que sou bandido
Aprisiona-me e me deixe
Na câmara de tortura
Da solitária de teus
Inimigos, desafetos,
A apodrecer como queres.

Se tem dúvidas do crime
Ou, como muitos já creem,
A certeza da inocência,
Ao meu Povo me libertas
Ou ao julgamento Dele
Tu serás assujeitado."

Quem julga o maior juiz?

Quem dele nos salva quando
Ele é o máximo corrupto?

Quando as leis para os iguais
Tornar-se-á para todos?

Quando a classe dos juízes
Deixará de ser a classe
Dos sobrenomes muitos
Poderosos para ser
A classe dos humanistas?

MORAL:
Quem faz as leis, para quem?

12/06/2018