quinta-feira, 20 de novembro de 2014

JUVENTUDE E A CULTURA ESCOLAR

       Estética é um termo proveniente do grego que significa “o que causa emoção”. O valor estético de um objeto é igual à sua capacidade de emocionar o receptor. Neste sentido, forma-se um tripé: autor-obra-público, sendo a obra o elemento central e intercomunicante entre os três fatores.
       Daí falarmos de função poética: “poieu”, em grego significa criar, poesia é criação, poeta é criador e poético é criatividade. O autor cria a obra, o receptor cria o seu entendimento da obra, a obra cria a emoção que deve unir tudo.
       O poeta, nas sociedades primitivas, tem, portanto, a função de inteligenciador da comunidade, isto é, ele faz com que o povo entenda a si mesmo, a sua função na sociedade, ao seu mundo, e a relação que estes têm entre si, a natureza e os deuses. Por isso a palavra em latim para poeta, “vate”, é a raiz de vaticínio: prever o destino de um indivíduo ou de um povo.
       O poeta, o artista, tem uma responsabilidade muito grande: o de fazer a sua comunidade olhar para si mesma e compreender-se; sem ele, a comunidade dissolve-se e perde-se, deixa de existir e passa a ser, tão somente, um aglomerado de pessoas, que não se comunica e não se ama.
       A adolescência marca, na maioria das sociedades, o momento de transição em que se é praticado o Rito de Iniciação. Após Iniciado, o jovem descobre o seu lugar na sociedade. No mundo ocidental em que vivemos, este rito está dissolvido e fragmentado em várias etapas, uma dessas etapas é a entrada no Ensino Médio. Nesta etapa, nós começamos a nos encaminhar no mundo e a nos posicionar como membro de uma comunidade. É quando começamos a olhar para o nosso mundo e às vezes descobrimos um sopro: a capacidade de olhar para as mesmas coisas que todos olham e ver algo diferente.
       “Pinte bem a tua aldeia e serás universal”, afirmou, certa vez, o grande escritor Leon Tolstoi. Assim reconhecemos aqueles que trazem a lasca do talento: o olhar dele nunca saiu da aldeia, por mais que sua voz ecoe pelo mundo. Mesmo quando o adolescente chora a dor adolescente: da inadequação, do procura do amor, da decepção do amor, da construção de sua percepção de pertencimento; há sempre a sensação que aquela dor não é só do autor, ele fala do seu grupo para o seu grupo.
        Cultura é aquilo que é cultivado, produzido na terra, o fruto de nosso trabalho. E o que é aquilo que uma escola produz? O que a escola cultiva? A cultura de uma escola são pessoas, cidadãos. Não se espera que de uma escola saia artistas: poetas, pintores, dançarinos e dançarinas, atores e atrizes, músicos, fotógrafos e fotógrafas. Não se espera que uma escola produza cientistas ou atletas de elite. Muito menos engenheiros, advogados, médicos. Apenas que produza gente que volte para a comunidade para construir a sua comunidade: um cidadão; seja como médico, como advogado, como engenheiro, como atleta, como cientista ou como artista.
        Tampouco se espera que um adolescente saiba o que quer com 15 ou 16 anos, ou que seus planos de futuro tenha qualquer aspecto de realismo. Mas espera-se que tenha planoS para o futuro. Quem cultiva este futuro no coração do jovem é justamente a escola. Espera-se que o jovem experimente, que busque alternativas para a sua alma, além da mentalidade bancária que se instalou na nossa educação. 
         Não se espera, finalmente, que um jovem de 16 anos seja um artista pronto, nem sequer que seja artista. Mas como este adolescente saberá o que ele é se não experimentar, se não tentar? O que será de sua comunidade se ele não tentar? Quem vai compreender a terra em que vive, o lugar de onde veio se não for ele mesmo? Se ele não construir, quem irá cultivar a auto-estima de sua escola, do seu bairro, de sua cidade, do seu povo?
         A escola abriu-se para a sua juventude, esperando colher o que tanto cultivou, se a juventude quis responder é irrelevante: a terra é fértil, as sementes lançadas, cada fruto tem o seu tempo. 
Se o jovem não se olhar, quem olhará para ele? Os velhos? E com quais olhos e donde vem este olhar? Será compreensivo ou será punitivo? Se o jovem não se entender, quem o entenderá?