quinta-feira, 6 de julho de 2017

VERGONHA (crônica política sobre a prisão de Berg Lima)

Meus alunos me perguntaram hoje se fiquei decepcionado com o caso de Berg Lima. Não, não fiquei. Envergonhado, sim. Decepcionado, não. Ainda mais, posso dizer que fiquei triste, muito triste, mas com a cidade.
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Não poderia me decepcionar, pois nada esperava de muito bom. Um governo razoável, no máximo, um governo passável e, logo, esquecível. Não poderia me decepcionar, haja vista que não me iludi. Todos os que vociferam moralismos estão, no dizer de Padre Vieira, "com inveja do roubo."
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Além do mais, todo canalha argumenta em nome de Deus, portanto, quem transforma comícios em cultos, sempre me fedem a "túmulos caiados". Cidadãos de fé usam sua ideologia como bússola moral, não como máscara social.
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O verdadeiro sentimento que desenvolvi foi vergonha. Vergonha de assistir minha cidade, em que me criei, em que meu filho nasceu, donde tiro o sustento da minha família como professor e funcionário público; ter seu nome enlameado pelas barbas bem tosadas de um prefeito embasbacado pela situação de ser parado por um policial civil que lhe revistava os bolsos de trás. Prefeito com ensino superior, vindo da crônica esportiva e da produção cultural, e que, desde que assumiu, imitava em tudo a todos os lances e cliques dos novos "gestores" públicos advindos do grande empresariado.
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A sua barba, o seu sorriso, os seus óculos, sua camisa azul, são a cara que representa a minha cidade. O que fez ele? Deu-nos a face da ladroagem.
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E, é claro, que "além da queda o coice", o efeito de decepção na maioria absoluta dos meus concidadãos que lhe garantiram a maior votação deste município foi o que me mais constrangeu, que a mim mais feriu: Da maior parte das bocas, as maiores reclamações foram: "foi por tão pouco"; e "foi burrice ter ido ele mesmo buscar o dinheiro".
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O que me entristece é ver que o que machuca o meu povo é o valor da sujeira, não ela em si. Como se sentisse que haveria valor mínimo para moral popular ou para enlamear a terra em que vivem e donde ganham o pão.
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Pior são aqueles que reclamam de sua burrice, ao invés de sua "atitude" (palavra que foi seu mote na pré, durante e no pós campanhas eleitorais) antiética. Mesmo não tendo ele ido buscar a propina, sempre haverá o encontro secreto entre corruptos e corruptores, este encontro em que se combinam valores e carregadores de pacotes, encontros que podem ser num restaurante de cidade pequena na hora do almoço, ou às 23h no Palácio. Gravações sempre poderão ser feitas.
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Mas, mesmo encoberto o ato, este não se torna mais limpo, ou menos sujo. Parece-lhes, apenas, que ladrão bom é ladrão que não se deixa pegar.
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Por isso, o prefeito me envergonha, porque envergonha a cidade e esta, por sua vez, me entristece e, sim, me decepciona por sua pouca vergonha.
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06/07/2017