sábado, 17 de março de 2018

MARIELLE

Eles já descobriram:
                                     Venceste!

Nós, que não te conhecíamos,
Agora de-coramos tuas falas
Nós, que nunca te vimos,
Agora encampamos a tua
                                        LUTA

Porque uma bala
                       cala
Uma voz
     Mas não barra
      Nossa palavra
Porque preferíamos sentir tua respiração
             Ao nosso lado
                                                teus pés caminhando
             Ao nosso lado
Mas és mártir,
              Marielle,
              Mulher
                   Negra
                Favelada da
              Maré

As balas que te encomendaram
desde os cofres da polícia
sempre procuram
   negras
faveladas
       balas
com certo endereço
com certo interesse

Mas seremos 
          exército
     de meninas
     de mulheres
     de negras
       faveladas
     de Marielles
com livros nas mãos
quebrando correntes
quebrando estatísticas
plantando sementes no asfalto

Somos porque tu és
presente
      sempre

14-17/03/2018

PROFISSÃO: PROFESSOR, IMPORTÂNCIA SUBSIDIÁRIA


Nesta sexta, os meus alunos da 2ª Série do Ensino Médio resolveram perguntar-me como é a vida de professor, em quantas escolas dou aula, quanto turnos eu pego, quanto é a base salarial de professor concursado de escola pública (“Vixe, professor, é tão pouquinho!” “Professor é a profissão – ‘odeio esta cacofonia’ – de ensino superior que, provavelmente, tem o salário menor no serviço público brasileiro.”), e como eu sou este tipo de professor que acredito que o conteúdo é subsidiário (usarei várias vezes esta palavra no texto) à formação cidadã e intelectual, resolvi entrar no debate, sobretudo quando uma moça (Kassandra) lançou o chavão: “E professor é tão importante, não é? Só tem médico porque tem professor.”

Embora reconheça a verdade inerente nesta assertiva, me preocupa muito esta relevância que nos dão que eu chamo de “importância subsidiária”. “Entenderam o que eu quero dizer com ‘importância subsidiária’?” Aqueles olhares vazios vieram para mim, cabeças balançando em negação, eu tento uma, duas, na terceira, vamos à analogia:

Pneus são muito importantes. Sem eles os carros não rodam, se estão desgastados, podem causar acidente. Todos concordam. “O que é importante: o carro ou os pneus?” Isto é o que eu chamo de “importância subsidiária”.

Se professor é importante porque está na base da formação do médico, ou do advogado, ou do engenheiro, a nossa profissão torna-se subsidiária. Neste caminho, o professor de escola é desnecessário, pois só importa quem forma o médico, o advogado e o engenheiro. Mas, um advogado, antes de ser advogado, antes de ocupar este lugar social, ocupa o lugar social de cidadão, de filho, de pai, de marido; uma engenheira, antes de ser uma engenheira, ocupar o lugar social de seu trabalho, ocupa também os lugares de cidadã, de filha, de mãe, esposa.

Não, a função de professor é na formação cidadã, ética e estética das pessoas. Um professor de língua portuguesa não serve para instruir as regras de ortografia (eu tenho uma ótima notícia para a maioria: “editores de textos” têm a função “corretor ortográfico” que é um método mais rápido e mais eficiente do que perguntar a um professor). A função de um professor de língua portuguesa é mostrar as variações linguísticas e, a partir disso, debater os preconceitos decorrentes destas variações e como se adaptar ao lugar social que, como sujeitos, ocupamos; como os gêneros textuais são usados e com qual interesse; a reconhecer as intenções discursivas por trás de todas as falas; a identificar as formações ideológicas que produzem os discursos; a compreender os contextos de produção que originam os mais variados textos; e criar um senso ético e estético a partir do estudo da nossa formação literária.

É para isso que serve um professor. Um gari é importante porque mantém a cidade limpa e higienizada para as pessoas. Um motorista é importante porque leva as pessoas. Uma enfermeira é importante porque cuida das pessoas. Um médico é importante porque trata a vida das pessoas. Um advogado é importante porque garante os direitos das pessoas. Um engenheiro é importante porque constrói coisas para as pessoas. Um trabalhador é importante enquanto produz para a sociedade, isto é, a sua função social perante outras pessoas.

Uma professora, um professor, são importantes porque formam pessoas. Isto é, transformam seres humanos em gente.

17/03/2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

2ANAS

Duas Anas de olhos escuros
                    de se perder
Duas Anas de bocas rubras
                    de se beijar

Dois caminhos
Duas rotas
Duas formas
                    de se amar

se eu pudesse uma noutra fundir
e nessa síntese dentro viver
meu corpo seria feliz
sem necessitar escolher
                    em qual olho
                    me perder
                    em qual boca
                    mergulhar

sábado, 24 de fevereiro de 2018

NÃO TE DAREI O MEU CÉU

não não te darei o céu
nem meu corpo
                           para gozar
nem tampouco
minhas costas
                           para montar

não não te darei meu sangue
                              meu sêmen
                              meu suor
                              meu choro
nem tampouco
                              meu pão
                              meu circo
minha solidão

não te darei razão
nem explicação
nem sim nem não
nem meu ódio
nem                        Nada

não te darei o meu céu
nem tampouco o chão
nem tampa
nem cova
mas boca
                         do Cão

sábado, 2 de dezembro de 2017

SONETO

Somos, amor, poetas. Eis a nossa
Mazela. Nós gozamos nossos versos
Diversos. Sós, curtimos nossa fossa. 
Ficamos nas palavras nus, imersos,
Criando novos ritmos, novas rimas,
Ludibriando os nossos vis avessos.
À noite, tu me dás um mote e cismas,
Eu monto e te completo neste embalo,
Regozijando as nossas obras primas.
O tempo está cruel no seu badalo, 
Manda acordar e não vai dar acordo,
Matando o teu tesão quando eu me calo. 
Somos poetas, sempre a nós recordo
Que amar palavras não nos mata o corpo.

EU ESTIVE AQUI

Eu estive aqui. Eu estive aqui por oito anos, aqui vivi quase toda a década de 1990, todo o meu ensino fundamental. Se, de certa forma, a maior parte de minha formação intelectual se deu no ensino médio, aqui se deu minha formação emocional. Aqui foi onde ouvi pela primeira vez a palavra "Marx", também foi aqui, neste colégio Arquidiocesano, que fiz minha primeira comunhão e tive como professora uma freira que destruiu todo o meu pavor de Céu e Inferno: "Céu e Inferno são estados da alma."
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Eu estive aqui. Nos meus sonhos ainda me vejo criança na mesma sala de aula, desejando escalar um andaime vermelho que passou um ano inteiro defronte a classe. Classe no térreo em que escrevi o meu primeiro poema (um acróstico bastante elogiado) para uma aula de redação da 6ª série (atual 7º ano).
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Eu estive aqui. E as árvores centenárias sob as quais brincava e sorria quando menino não me parecem tão enormes quanto na minha memória... Então me resta a certeza que a memória está certa, os olhos errados.
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Eu estive aqui. Nesta sala. Atrás desta porta ora trancada se deu o momento mais importante da minha vida. Toda os meus segundos se resumem ao que ocorreu atrás desta porta, numa manhã de terça-feira, durante uma aula de Língua Portuguesa no segundo horário, uma aula chatíssima de análise sintática de períodos compostos por subordinação. Era uma sétima série, atual oitavo ano, e da minha janela no primeiro andar, dava para ver os campos de futebol.
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Folheando a gramática, tentando fugir dentro da minha imaginação daquele infortúnio de reduzidas de gerúndio e de infinitivo, que me deparei com a lição de verbos. Naquele tempo, as aulas de língua portuguesa tentavam se modernizar, viver a partir do texto, mas era ainda só uma tentativa, e todo capítulo começava com um poema. O poema de "Verbo" era "José", de Carlos Drummond de Andrade - provavelmente para falar de subjuntivo -. E qual não fora meu impacto, qual não fora minha dor!
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O resto do dia passei lendo e relendo aquele poema, li outros, TODOS do livro, não saí para o intervalo, não visitei a biblioteca como sempre fazia para devorar os livros que lá havia. Apenas li, li "José". "José" era eu, era minha vida inteira, meu presente, meu passado e, acima de tudo, o meu futuro. Minha vida se resume à primeira vez que li "José".
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Naquele mesmo dia, escrevi o meu primeiro poema (agora de verdade, sem mandado de professora). E fiz um desenho. Na verdade foram dois poemas e dois desenhos (um dos textos era em inglês). Desenhei porque ainda não entendia direito a função da imagem poética (e a estruturação dos versos) e no livro - não me esquecerei jamais -, todo poema vinha conjugado com uma bela imagem, o de "José" era de um homem de meia idade de costas, caminhando sobre uma relva verde sob um céu rosáceo.
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Por muitos anos ainda guardei a relíquia da gramática como um memento do momento. Eu não poderia saber, mas eu já sabia que estava condenado. Condenado como o menino calado de poucos amigos, como o jovem calado de poucos amigos, o homem calado preso ao convívio familiar e trabalhista que precisaria escrever, escrever sempre, e muito, quase nunca algo bom, para compensar nesta fala dura do papel a frustração de não dizer o seu íntimo.
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Por causa de uma aula chatíssima de orações subordinadas reduzidas de gerúndio e infinitivo eu fui condenada a ensinar, pelo resto de minha vida, orações subordinadas reduzidas de infinitivo e gerúndio.
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Mas foi, principalmente por causa destes professores que me tornei o professor que sou.
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Muito mais do que um conteudista, mas alguém com paixão com quem se vive e e se convive. Todos amavam esta família, a família que eu sou. Se muitos alunos me dizem que sou um ótimo professor, se alguns me falam que eu sou péssimo, e se outros tantos me dizem que eu sou o melhor que já tiveram, "o melhor professor do mundo", é que eles não sabem a verdade: Eu sou um imitador; sou um imitador de todos estes maravilhosos professores e professoras que amaram tanto o que fizeram e amaram a família que construíram dentro dos muros desta escola.
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Eu despejo para eles, apenas uma fração da paixão em que fui banhado.
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Pio XII, muito obrigado.
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02/12/2017 (vinte anos depois de minha saída).

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PAX ROMANA

Eu nos ofereço a Paz Romana
e sob esta Águia
          conviveremos
e sob esta Cruz
          conviveremos
e sob esta Espada
          conviveremos

Eu nos ofereço a Paz Romana
e perante minha Lei
          iguais seremos
e perante minha Lógica
          iguais seremos
e perante minha Língua
          iguais seremos

Eu nos ofereço a Paz Romana
e sob minha Sombra
e perante minha Luz
          governaremos