domingo, 22 de junho de 2014

UM LUGAR VAZIO, ou cadê meu 10?

Vire e mexe: cadê o dez? Mexe e vira: onde está o homem da criação? A Seleção Brasileira vai mal: faltou quem pense o jogo!

Mas talvez o problema seja este mesmo: Qual é a nossa referência de 10? Pelé e Zico são os que me vêm mais rapidamente. Mas ao vê-los em vídeo não reconheço neles o que os ingleses, que por falta de nomenclatura exata para jogador deste tipo, chamam de função do número 10 (number 10 role).

Pelé sobretudo. É um atacante driblador e carregador de bola, que jogava mais dentro de área do que dando os passes para quem está entrando. Guardadas as devidas proporções, mais próximo de um Cristiano Ronaldo do que de um Xavi.

Quem tinha a função de criação nos três primeiros campeonatos mundiais eram Didi e Gérson, números 8, o que antigamente chamávamos de meia-armador. 

A Copa em que Pelé fez mais assistências do que gols foi a de 1970, justamente aquela cujo sistema tático era mais próximo do 4-2-3-1 moderno do que o 4-2-4 (ou 4-3-3) em que jogava no Santos e na Seleção durante os anos 50 e 60.

O mesmo pode se dizer de Zico em 1982: quem fazia a função de meia-central naquele 4-2-3-1 (4-2-2-2) era Sócrates, número 8.

Rivaldo em 2002 era muito mais atacante, funcionando melhor à borda da grande área; Ronaldo Assis e Kaká também têm esta característica de carregar a bola, driblar e finalizar, mas que, com a cabeça levantada e com a qualidade acima da média que possuem, podem achar um passe para um jogador mais bem colocado. 

O 10, portanto, tornou-se o símbolo do nosso futebol completo, total: alguém que dribla, finaliza de dentro da área ou arremata de média distância e, quando alguém se posicionar melhor, faz a assistência.

Nesse sentido, Neymar realmente cai bem nesta função, e é com ele pelo centro que a Seleção de Scolari apresentou os melhores repertórios.

Nós não temos um Özil, um Hazard, ou um Fábregas para convocar, jogadores que criem situações de gol e façam passes chave. O jogador mais próximo a esta característica que temos na seleção é Hernanes, um 8 clássico.

O que realmente sentimos falta é de um jogador que posicionado nos 3/4 do campo possa dar o passe final, algo mais ao estilo de um Zidane, um Platini, um Maradona.

A ausência tanto deste antigo armador que possuíamos e que não há mais, ou desse 10, também ficou acentuado pela troca do 4-3-3 pelo nosso 442 (4-2-2-2) que transformou o 8 em destruidor e na dupla de meias em carregadores de bola que tentam, desafortunadamente, ligar a defesa e o ataque, algo que não acontece no 442 argentino (4-3-1-2): um destruidor, um criador e dois carregadores de bola para auxiliar tanto o 10 quanto o 5.

Desta feita, talvez se torne no maior benefício do uso quase irrestrito do 4-2-3-1 no Brasil (ainda que mal executado), ou o retorno ao 4-3-3 (4-1-4-1 na fase defensiva), seja ensinar aos nossos jovens como jogar nesta posição de 10 e de 8, duas funções praticamente mortas no nosso futebol.

Mas a pergunta final é: há realmente um lugar vazio no nosso futebol para ser preenchido, ou é só choradeira que retorna quando o time vai mal e "ninguém" se importa quando vai bem?