domingo, 16 de novembro de 2014

RECURSIVIDADE

                     Pirahã
                 Não precisa
                     Contar
Nem lembrar            Nem prever
                      Deus
Inventou-se              Para os infelizes
                     Pirahã
                 Não precisa 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

ÓDIO REFLETIDO

Teu ódio tem em mim espelho
Reflete-se de volta
Em mesma proporção
Totalmente invertido
Teus olhos voltam-se para mim
Possessos de peçonhas
E é como se ferissem água
E nada causam além de tu mesmo
Visto e refletido.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

MELHOR DO QUE EU

Porque o solo onde nasceste
Não te faz melhor do que eu
Nem todos os diplomas que enfeitam
As paredes de meu barraco
Te fazem melhor do que eu
A brilhante cor do teu sangue
Não te faz melhor do que eu
Nem o peso do teu bolso,
Nem a barba de minha cara,
Nem com quem amo,
Te fazem melhor do que eu
Mas o ódio que professas por mim
Faz-me melhor do que poderias ser.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SUMIÇO

Nós nem sentimos.
Foi assim abrupto e pronto.
Quando o pulso gama de um Quasar nos acertou, nós nem percebemos. Ou antes sim. Nosso avançadíssimo sistema de satélites percebera, alguns segundos antes: o sinal. Ninguém no mundo o soube. Eu sim. Eu o vi na tela pipocar e antes de entender a variação eu já não existia, tinha sumido junto ao planeta Terra. 

Você ainda sabe o que é isso?

Então deixe-me explicar o que foi a Terra: um pedaço minúsculo de rocha em que apenas alguns trilhões de seres orgânicos ainda respiravam.

Mas Deus fora bondoso conosco. Não foi uma extinção em massa como no caso dos Dinossauros, não, não: o iminente meteoro B-612, que estava em rota de possível colisão com a Terra, passou somente a alguns milhões de quilômetros ao nosso lado. Se ainda tivéssemos água em nosso planeta os maremotos teriam inundado apenas centenas de quilômetros de área costeira: um erro de mira tão pequeno!

Mas quem não errou foi o Quasar. Nós sumimos.

Quando, do violento entrechoque de poeira, gelo e gás, que ao girar em altíssima velocidade na borda da enorme singularidade que centra e organiza a existência de nossa galáxia, o monstro enorme que tudo devora, Caríbdis infinito, massivo, negro e faminto, vomita o excesso acelerado dos restos de milhões de estrelas que se somem e se movem de em dentro, na queda cíclica e eterna, desmoronando, monstro quengole tudo: a si mesmo: o nada negro onde tudo se cabe-se, nós sumimos, o-pra-sempre.

Eu o vi na tela pipocar e antes de entender a variação eu já não existia.

Entender ≠ Existir.  

Não houve explosão cataclísmica, nem dor, nem fome, nem frio! O Céu não escurecera ante bilhões de quilos de pó e sangue, ao contrário: nós brilhamos infinitos como uma estrela moribunda: supernova!!

Suprema desvinculação.

Quando o nosso satélite percebeu, já era tarde. Essa é a imensa e bela ironia das ondas eletromagnéticas: você só as vê quando elas chegam em você. 

A luz o atingiu, ele mandou o sinal e explodiu, o sinal pipoca na tela e eu não estou. 
Nada está.

Nós não fomos extintos, nós fomos aniquilados: desaparecemos: suprema bondade de Deus. 

Quando a onda eletromagnética nos atingiu o oxigênio instantaneamente comburiu-se. Alguns milésimos de segundos depois todos os comburentes atmosféricos explodiram. Isso foi cerca de três segundos antes de toda a água no planeta ferver.

Embora e fervura não tenha nenhuma relação direta com o ar e o Céu e o fogo, mas nós sim.
Nós sumimos. Fomos felizardos. E a raça humana, nós, mostramos nosso lugar no mais alto palco evolutivo.

Quando o oxigênio incendiou-se, todos aqueles que vivem rodeados por ele se foram juntos: não houve tempo nem para o mais ínfimo pensamento desconstruído: nós sumimos. Assim. Ponto 
Mas todas as nossas mais fortes construções: bunkers; muralhas; fortificações: resistiram.

Ficaram de pé heroicamente, até a explosão do hidrogênio, uma força tão exemplar, igualável apenas por algumas vezes a força de todas as bombas atômicas juntas – mas resistiram, de pé, heroicas: os monumentos finais da grandiosidade da espécie humana –.

Os únicos que sofreram foram os peixes e os demais seres marinhos. Eles sentiram uma dor trucidante por infinitos dois segundos antes de morrerem. Mas não sumiram como nós, seus corpos ficaram lá, boiando como prova de que viveram até que a explosão do nitrogênio desintegrasse toda a água.

As baleias cantaram em uníssono uma canção última e fúnebre. E por fim, compreendemos em palavra o real significado do sofrimento. 

A palavra: solução; final.

A palavra mais buscada por todos os poetas, a palavra certa e derradeira, o sentido completo, sem subterfúgios ou dicionários: o fim em si mesmo, a dor em si.

Mas não estávamos mais aqui para apreciar ou entender tal palavra. Sumimos.

Nós, não a Terra. Esse pedaço de rocha inútil e sem vida.

Sumimos.

Mas estamos aqui, caminhando por esta nova Terra – ou quiçá a mesma – estes protozoários novos, remanescentes da mesma e triste consciência radioativa. 

Esse pedaço vago e seco de rocha continua, no entanto, existindo, até que o nosso Sol, essa estrela fria e pequena que nos alimenta, decida nos pulverizar. 

E mais tarde, quando Andrômeda e a Via Láctea decidirem sua dança de acasalamento, interdevorando-se: imensos braços que se destroem, se desintegram; quando suas singularidades procurar-se-ão (dois amantes-distantes a se buscarem sempre-sempre), nesse novo pulsar de força imensa, e Júpiter com suas infindáveis tempestades cair pra dentro do centro radioativo da novíssima galáxia e Saturno for, irremediavelmente lançado para longe no vazio escuro e sem luz do Cosmo, onde não há nada: tempo 0! 

Nem mesmo isso sobrará, nem Sol, nem sistema, um nada, um vazio, e ainda assim, teríamos caminhado por sobre a Terra. Nossa sombra destroçada e perdida, calcinada, já se terá ido.

Mas isso levará tempo. Até lá, já teremos sumido.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SONETO

Na vida sofrer é certa fortuna
Cada grão de si, cada amanhecer
É novo afã, é nova fina duna
          Onde prender o pé, lá se perder,
          Onde endoidecer, onde não chorar
          Onde se calar, nunca mais volver.
Mas é loucura pura reclamar
Como pássaro que canta por não
Voar, tal peixe que afoga no mar.
           Eu reconheço minha condição
           Humana; minha grande e vã vaidade:
           Ser peregrino dessa solidão.
A essência de viver, sua verdade,
É a busca eterna por Felicidade.

CAFÉ

Passa-me um café,
                          Faz favor,
Preto
                         Como olhos,
Forte 
                          Feito a fé,
Amargo 
                          Feito a vida,
Quente
                          Como o amor.

Para que eu possa
                              Nele
Mergulhar
Me erguer
                Me perder
                Me achar.

SONETO

Meu coração não sabe, não identifica
Que o que tanto deseja pode arrebentá-lo.
Pois o desejo é sopro que na fina e rica
           Membrana da alma bate em fortíssimo abalo,
           Em sucessivos danos, com constante empenho
           Até que estoure toda e fique como um ralo:
Neste vazio buraco escorre quanto tenho
De sonhos, de desejos, de fé por qual rogo
Encolhendo-me. Mas meu coração é lenho
           Que não se reduz face a qualquer fraco fogo;
           Meu coração, na dor martelado, esquivanças 
           Conhece, com artimanhas produz desafogo
Que a dor não compreende: cheio de mudanças,
Pois a alma é colcha de retalhos de esperanças.