quarta-feira, 8 de outubro de 2014

ÓDIO REFLETIDO

Teu ódio tem em mim espelho
Reflete-se de volta
Em mesma proporção
Totalmente invertido
Teus olhos voltam-se para mim
Possessos de peçonhas
E é como se ferissem água
E nada causam além de tu mesmo
Visto e refletido.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

MELHOR DO QUE EU

Porque o solo onde nasceste
Não te faz melhor do que eu
Nem todos os diplomas que enfeitam
As paredes de meu barraco
Te fazem melhor do que eu
A brilhante cor do teu sangue
Não te faz melhor do que eu
Nem o peso do teu bolso,
Nem a barba de minha cara,
Nem com quem amo,
Te fazem melhor do que eu
Mas o ódio que professas por mim
Faz-me melhor do que poderias ser.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SUMIÇO

Nós nem sentimos.
Foi assim abrupto e pronto.
Quando o pulso gama de um Quasar nos acertou, nós nem percebemos. Ou antes sim. Nosso avançadíssimo sistema de satélites percebera, alguns segundos antes: o sinal. Ninguém no mundo o soube. Eu sim. Eu o vi na tela pipocar e antes de entender a variação eu já não existia, tinha sumido junto ao planeta Terra. 

Você ainda sabe o que é isso?

Então deixe-me explicar o que foi a Terra: um pedaço minúsculo de rocha em que apenas alguns trilhões de seres orgânicos ainda respiravam.

Mas Deus fora bondoso conosco. Não foi uma extinção em massa como no caso dos Dinossauros, não, não: o iminente meteoro B-612, que estava em rota de possível colisão com a Terra, passou somente a alguns milhões de quilômetros ao nosso lado. Se ainda tivéssemos água em nosso planeta os maremotos teriam inundado apenas centenas de quilômetros de área costeira: um erro de mira tão pequeno!

Mas quem não errou foi o Quasar. Nós sumimos.

Quando, do violento entrechoque de poeira, gelo e gás, que ao girar em altíssima velocidade na borda da enorme singularidade que centra e organiza a existência de nossa galáxia, o monstro enorme que tudo devora, Caríbdis infinito, massivo, negro e faminto, vomita o excesso acelerado dos restos de milhões de estrelas que se somem e se movem de em dentro, na queda cíclica e eterna, desmoronando, monstro quengole tudo: a si mesmo: o nada negro onde tudo se cabe-se, nós sumimos, o-pra-sempre.

Eu o vi na tela pipocar e antes de entender a variação eu já não existia.

Entender ≠ Existir.  

Não houve explosão cataclísmica, nem dor, nem fome, nem frio! O Céu não escurecera ante bilhões de quilos de pó e sangue, ao contrário: nós brilhamos infinitos como uma estrela moribunda: supernova!!

Suprema desvinculação.

Quando o nosso satélite percebeu, já era tarde. Essa é a imensa e bela ironia das ondas eletromagnéticas: você só as vê quando elas chegam em você. 

A luz o atingiu, ele mandou o sinal e explodiu, o sinal pipoca na tela e eu não estou. 
Nada está.

Nós não fomos extintos, nós fomos aniquilados: desaparecemos: suprema bondade de Deus. 

Quando a onda eletromagnética nos atingiu o oxigênio instantaneamente comburiu-se. Alguns milésimos de segundos depois todos os comburentes atmosféricos explodiram. Isso foi cerca de três segundos antes de toda a água no planeta ferver.

Embora e fervura não tenha nenhuma relação direta com o ar e o Céu e o fogo, mas nós sim.
Nós sumimos. Fomos felizardos. E a raça humana, nós, mostramos nosso lugar no mais alto palco evolutivo.

Quando o oxigênio incendiou-se, todos aqueles que vivem rodeados por ele se foram juntos: não houve tempo nem para o mais ínfimo pensamento desconstruído: nós sumimos. Assim. Ponto 
Mas todas as nossas mais fortes construções: bunkers; muralhas; fortificações: resistiram.

Ficaram de pé heroicamente, até a explosão do hidrogênio, uma força tão exemplar, igualável apenas por algumas vezes a força de todas as bombas atômicas juntas – mas resistiram, de pé, heroicas: os monumentos finais da grandiosidade da espécie humana –.

Os únicos que sofreram foram os peixes e os demais seres marinhos. Eles sentiram uma dor trucidante por infinitos dois segundos antes de morrerem. Mas não sumiram como nós, seus corpos ficaram lá, boiando como prova de que viveram até que a explosão do nitrogênio desintegrasse toda a água.

As baleias cantaram em uníssono uma canção última e fúnebre. E por fim, compreendemos em palavra o real significado do sofrimento. 

A palavra: solução; final.

A palavra mais buscada por todos os poetas, a palavra certa e derradeira, o sentido completo, sem subterfúgios ou dicionários: o fim em si mesmo, a dor em si.

Mas não estávamos mais aqui para apreciar ou entender tal palavra. Sumimos.

Nós, não a Terra. Esse pedaço de rocha inútil e sem vida.

Sumimos.

Mas estamos aqui, caminhando por esta nova Terra – ou quiçá a mesma – estes protozoários novos, remanescentes da mesma e triste consciência radioativa. 

Esse pedaço vago e seco de rocha continua, no entanto, existindo, até que o nosso Sol, essa estrela fria e pequena que nos alimenta, decida nos pulverizar. 

E mais tarde, quando Andrômeda e a Via Láctea decidirem sua dança de acasalamento, interdevorando-se: imensos braços que se destroem, se desintegram; quando suas singularidades procurar-se-ão (dois amantes-distantes a se buscarem sempre-sempre), nesse novo pulsar de força imensa, e Júpiter com suas infindáveis tempestades cair pra dentro do centro radioativo da novíssima galáxia e Saturno for, irremediavelmente lançado para longe no vazio escuro e sem luz do Cosmo, onde não há nada: tempo 0! 

Nem mesmo isso sobrará, nem Sol, nem sistema, um nada, um vazio, e ainda assim, teríamos caminhado por sobre a Terra. Nossa sombra destroçada e perdida, calcinada, já se terá ido.

Mas isso levará tempo. Até lá, já teremos sumido.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SONETO

Na vida sofrer é certa fortuna
Cada grão de si, cada amanhecer
É novo afã, é nova fina duna
          Onde prender o pé, lá se perder,
          Onde endoidecer, onde não chorar
          Onde se calar, nunca mais volver.
Mas é loucura pura reclamar
Como pássaro que canta por não
Voar, tal peixe que afoga no mar.
           Eu reconheço minha condição
           Humana; minha grande e vã vaidade:
           Ser peregrino dessa solidão.
A essência de viver, sua verdade,
É a busca eterna por Felicidade.

CAFÉ

Passa-me um café,
                          Faz favor,
Preto
                         Como olhos,
Forte 
                          Feito a fé,
Amargo 
                          Feito a vida,
Quente
                          Como o amor.

Para que eu possa
                              Nele
Mergulhar
Me erguer
                Me perder
                Me achar.

SONETO

Meu coração não sabe, não identifica
Que o que tanto deseja pode arrebentá-lo.
Pois o desejo é sopro que na fina e rica
           Membrana da alma bate em fortíssimo abalo,
           Em sucessivos danos, com constante empenho
           Até que estoure toda e fique como um ralo:
Neste vazio buraco escorre quanto tenho
De sonhos, de desejos, de fé por qual rogo
Encolhendo-me. Mas meu coração é lenho
           Que não se reduz face a qualquer fraco fogo;
           Meu coração, na dor martelado, esquivanças 
           Conhece, com artimanhas produz desafogo
Que a dor não compreende: cheio de mudanças,
Pois a alma é colcha de retalhos de esperanças.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A EPISCOPISA

Sarah Esther, de tanto ler livros abençoados sobre blindagem – de casamento à bolsa, da vagina ao cabelo –, decidiu abrir uma empresa de blindagem de automóveis.
Atendia de traficante a deputado e todos os níveis entre estas duas classes.
Sarah Esther, mulher virtuosa, pagava religiosamente o seu dízimo e, como manda a promessa, prosperou.
Mas Sarah Esther tinha um sonho secreto que no fundo do seu íntimo era uma opala ungida que iluminava a sua vida, refletindo, multicor, a Graça de Deus: desejava ser Bispa. Para tanto, na necessidade de realizar-se tão simples sonho, bastava que casasse com um Bispo.
O Bispo em questão era todo o afã.
Ora, como casar com um Bispo se todos são, por definição Pastores de grau elevado, e para ser Pastor é obrigatório o matrimônio, consequentemente o caminho fácil estava selado.
Mas o caminho para o Céu é a via das pedras. 
Eis a sua glória!
Com suas pretensões bem definidas, partiu Sarah Esther para a conquista. Como uma pessoa pia há de perceber, para uma mulher com todas as virtudes de Sarah Esther noivos e pretendentes não faltavam. Mas nenhum deles não interessavam a Sarah Esther, não cheiravam a Bispo, não emanavam a ungidura de Deus!
Então Sarah Esther, mulher de justo juízo, empreendeu a produção de um Bispo por sua própria conta.
Sábia e diligente, a futura Bispa começou a participar mais e observar melhor as aulas de Teologia da Igreja, onde jovens, por três anos, aprendiam dogmas, decoravam a Bíblia, conheciam as correntes teóricas das várias vertentes do Protesto: de Lutero a Calvino, e todos os níveis de pentecostalismo – do velho e do novo – existente.
Lá conheceu Messias Moisés! Que nome mais abençoado que esse? Era fraco em calvinismo mas uma máquina de citar versos! Dizia o Gênesis, o Êxodus, o Levítico, o Deuteronômio, Jó, os Salmos, os Provérbios, Eclesiastes, os Evangelhos de Mateus e Marcos, os Atos dos Apóstolos, as cartas de Paulo, o magnífico Paulo: aos Romanos, sobretudo aos Romanos, as duas cartas aos Coríntios, a segunda aos Tessalonicenses; e cerca de metade do Apocalipse; tudo isso como quem lê uma página invisível diante dos olhos. 
Era uma bênção!
Messias Moisés ainda orgulhava-se de seus fortes testemunhos: Deus curara-o do vício em crack e em sodomia.
Era o mesmo que achar!
Era dar-lhe um prédio e teria um templo cheio: estava ali tudo desenhado na sua frente, era seguir os passos certos e ungidos de todos os livros blindados que lera, ela, Sarah Esther, mulher de virtude, achara seu varão.
Um varão para chamar de seu: um Bispo.
Se não agora, era o projeto, era comprar na planta, pagar as mensais, a trimestrais e a récua ao pegar a chave do templo pronto.
Sarah Esther esforçou-se muito para seduzi-lo, se fosse outro bastaria olhar, mas este rapaz, este Messias Moisés entregara-se apenas a Deus, como seduzir alguém imune à tentação da carne?
Fez muitas promessas: de amor, de virtude, de futuro, de matrimônio feliz e de Bispado. Com o tempo e com os desenhos de seus sonhos, à vista do terreno onde ficaria a futura Catedral, as traves dos olhos de Messias Moisés caíram e estes resplandeceram em Graça! 
Deus agia!
O casamento foi feito.
Messias Moisés sagrou-se Pastor.
Sarah Esther, agora Pastora, fez aula de canto, lançou álbum de música e iniciou amizade com outras pastoras e bispas cantoras em shows.
Trocou de denominação aos mostrar seus planos às Bispas colegas. Uma prometeu-lhe o sonho conquistado.
Sarah Esther finalmente venceu.
Trouxe o banqueiro amigo seu, que de tanto blindar seus veículos, tornou-se próxima da sua esposa, para a nova Igreja. Conseguiu consigo vultuoso empréstimo e construiu.
O templo enorme, cheio de colunas e sóbrio, como uma gigantesca caixa, tão grande que Deus mesmo poderia deitar-se lá. 
E os vitrais! Ah! os vitrais ungidos. Um tão bem colocado, acima do terceiro balcão – onde ficaria o banqueiro e os demais dizimistas de primeira estirpe –, azul e branco que emitia, sobre o trono central – onde se sentaria o futuro Bispo (com a sua Bispa ao seu lado) – uma luminosidade de céu e nuvens, era como se o próprio Senhor sentasse lá.
Nada a ver comparar com igrejas ímpias projetados por ateus! Que absurdo!
E, como uma promessa de Deus, a Igreja prosperava.
A empresa de blindagem já não ia tão bem, quem se importa... agora ela era Bispa e os dízimos avultavam, e ela cantavam toda a noite, e os deputados e o banqueiro compareciam, e todas a aplaudiam e ela era satisfeita:
Sarah Ester, mulher de juízo justo, A Bispa!

E o Bispo? E Messias Moisés? Deprimido e cansado de ser segundo de sua esposa – pois ela prometera-lhe virtude e vivia no pecado da soberba, de querer estar à frente do marido – sentava-se na cadeira central, mas as luzes eram dela, sempre dela.
E o que um dia pensou Messias Moisés ao ter sido esquecido nas coxias do programa de TV em que Sarah Esther, aquela péssima cantora (quem não canta bem com quilos de eletrônica no microfone e playback?), foi apresentar-se?
E o que sentiu no dia em que a pregação de Sarah Esther, cheia de seu sonho de ser Bispa, cheia de sua vontade de prosperidade, da sua garra de vencer e sua vitória na empresa foi muito mais aplaudida que os livramentos que Deus deu-lhe!: Oh! El Shaday! Eita Glória! Amém-Aleluia! Jeová-Jiré!
Num dia, atazanado pelo Inimigo, vendeu a empresa, esvaziou a conta do Templo e fugiu com o banqueiro.

E Sarah Esther?
Diante da dura realidade, caminhou até o altar, olhou para o púlpito, sentou-se nO Trono. Sentindo toda a força do seu episcopado blindado, Sarah Esther foi afogada pela Luz de Javé, e gemeu e gozou no Seu Poder como nunca sentira com o homem.
Sarah Esther estava realizada!