sábado, 24 de dezembro de 2011

MESSACRE: PARTE II: A Análise

1.      Introdução
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Antes de qualquer coisa, quero fazer o mea culpa pela demora desta segunda parte que vai. Dezembro é um mês cheiíssimo para a minha profissão (professor): são provas bimestrais, provas finais, reuniões pedagógicas antes e depois destas últimas; alunos chorando em súplicas, pais chorando em súplicas, alunos ameaçando, pais ameaçando... mas esse texto não é sobre as questões educacionais públicas brasileiras.
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Tampouco ater-me-ei simplesmente à devastação futebolística da final do mundial de clubes – partida tão importante para os blaugrana que os próprios jogadores do time decidiram não ganhar o “bicho” do título, como não ganham por outros títulos “sem importância”, como as Recopas e Supercopas que vencem –. Para tal intuito indico diretamente o texto do Zonal Marking, o melhor que li sobre o jogo. 
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Minha abordagem procurará ser outra: tentar compreender que revoluções nas práticas e nas táticas o “messecre” culé implicará para o futebol mundial, e sobretudo brasileiro; tomando também como perspectiva a vitória anterior sobre o Real Madrid de Mourinho.
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A primeira parte será encontrada aqui.
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2.      Dupla-Tripla-Quádrupla Função
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A questão fundamental da escola holandesa de futebol total que o Barcelona prega e pratica até hoje – que Josep Guardiola aprendeu diretamente de Cruyff, que chegara na Cataluña junto com Rinus Michels no fim dos anos 70 para implantar o estilo que fizera sucesso na Europa no início dessa mesma década no Ájax e na seleção laranja –, é a inversão de posições verticalmente: o lateral vira ponta e o ponta vira lateral, ou o centro-avante vira meia e o meia vira centro-avante, por exemplo. É isto que se convém chamar de “carrossel holandês”.
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Essa troca de posições só é possível se todos os jogadores nela envolvidos souberem o que fazer na nova posição em que se encontram. Isso obriga que os jogadores tenham, no mínimo dupla-função, isto é, sejam atacantes e meias, ao mesmo tempo, ou laterais e meias ao mesmo tempo, zagueiro e volantes, zagueiros e laterais, laterais e volantes, etc. etc. etc.
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2.1  Cesc Fábregas chega às mãos de Guardiola
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Francesc Fábregas saiu das canteras do Barça e foi direto para às mãos de Arsene Wenger, no Arsenal. Lá começou como um segundo volante tipo Box-to-box no 4-4-2/4-5-1 de Wenger, com Bergkamp fazendo a função de 9,5, como se diz na Itália e na França. Isto é, um trequartista adaptado à função de second striker – é só lembrar de Roberto Baggio, Alessandro Del Piero e tantos outros –.
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Depois da saída do holandês, Fábregas foi adaptado à ponta-de-lança. Nas mãos de Arsene, o jovem espanhol desempenhara já estas funções. Chegando, enfim, de volta ao Barcelona, Cesc foi logo posto na “função Messi”, ou falso nove. Isso era necessário porque a principal necessidade da contratação do 4 foi aumentar a qualidade do “banco”. Jogando com pressão alta sobre a bola o tempo inteiro, o treinador tem que rodar a equipe, sobretudo as duas últimas linhas – meias e atacantes –.
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Com Messi em campo, Fábregas jogou de ponta-de-lança no losango do 3-4-3 de Guardiola – desdobrado em 3-1-3-3 –, com Xavi à sua direita e Iniesta ou Thiago Alcântara à sua esquerda. Sem David Villa, normalmente Iniesta joga de ponta-esquerda, mas com o 8 machucado, Guardiola arrumou mais uma quarta função para Cesc: também a ponta-extrema – a utilização do mesmo na ponta-direita contra o Santos vou considerar como mesma função, mas se o leitor preferir, pode considerá-la uma quinta –.
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Contra o Real Madrid, num inusitado 4-4-2, Fábregas foi o winger-esquerdo, invertendo com Iniesta, o meia-central; contra o Santos, numa espécie de 3-1-4-2 – ou como eu prefiro ver, um 3-1-5-1 – o 4 foi um meia-central que invertia com winger-direito Dani Alves.
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Percebe-se então uma certa coerência de Guardiola. Sua escolha por contratar jogadores inteligentes, com histórico de múltiplas funções em times anteriores, reflete diretamente o pensamento culé de formar na base futebolistas totais, jogadores capazes de inverter posições e manter o carrossel rodando.
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2.2  Sérgio Busquets e o esquema 3,5 – 3,5 – 2,5
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Messi é gênio (poucos contestarão?). Xavi, Iniesta, Fábregas são craques entre os melhores do mundo hoje. Mesmo assim, com qualidades individuais tão gritantes à sua frente, o elemento tático que vêm chamando mais atenção nos últimos tempos é Sérgio Busquets.
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Busquets é reconhecidamente o metrônomo do time, marcando a perfeição do seu tempo, é a base da troca de passes do time. Ora, se estamos diante dum “carrossel”, ele só gira – tal qualquer roda ou móvel, como bem já observara Aristóteles – a partir de um eixo fixo. Este eixo é Busquets. Entre todas as receitas que se colocam de “como parar o Barcelona”, todas começam com: “parem Busquets”. 
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Daí observar de perto as funções deste “volante”. Na temporada 10-11, diante de tantos times com apenas um atacante, o 4-3-3 barcelonista se transformava num ancestral WW(2-3-2-3), esquema tático com o qual a Itália foi bicampeã do mundo (1934-38). Diante de um ataque de dois atacantes fixos Guardiola mandava o 16 fazer o que eu gosto de chamar de “jeitinho brasileiro”: o nosso jeito de transformar o 4-3-1-2 em 3-4-1-2. Os laterais viram alas e o primeiro volante vira terceiro zagueiro – o “sobra” –.
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Porém não posso comparar Busquets aos volantes médios brasileiros. Pode parecer exagero, mas a comparação mais clara seria com Kaiser Franz Beckenbauer. O único homem a comparecer na seleção ideal de três copas FIFA seguidas, começou como volante do 4-2-4 germânico e acabou como quarto zagueiro do 4-3-3 do time campeão do mundo em 1974. Na verdade, sua função ficou conhecida como líbero. Com a posse de bola, Beckenbauer tinha total liberdade de avançar ao meio de campo e iniciar as jogadas, controlar a posse de bola, estabelecer a linha de passes.
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Já no Barcelona, com a volta de Abdal à equipe depois de curar-se de uma doença gravíssima, os catalães puderam formar seu 3-4-3 mais devidamente, já que o francês faz a base para dar total liberdade para Daniel Alves. Parecia desnecessário, então, que Busquets precisasse voltar a descer para a zaga.
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Parecia. Contrariando todos os prognósticos, Mourinho botou o Real Madrid num 4-2-3-1 para enfrentar o Barcelona, quando todos esperavam um 4-3-3. Com isso, numa só tacada, o treinador português tirava o tempo de Busquets com a bola e matava a defesa azul-grená que não tinha sobra. Como Guardiola responderia a isso? Eu, assistindo ao jogo, logo reclamei: “tem que recuar Dani Alves de volta à defesa”! Mas Pep mantém Dani adiantado e recua Busquets. Sem a bola, Busquets era zagueiro (compondo a sobra defensiva), com ela podia adiantar-se, jogando no meio-campo, reiniciando a linha de passe.
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Com a bola o time, por causa da dupla função de Busquets, configurava-se num 3-4-3, sem ela num 4-3-3. Poder-se-ia dizer, então, que o Barça joga com uma linha de 3,5 atrás e com 3,5 no meio, dependendo apenas donde jogaria Sérgio.
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E como Messi é na verdade um falso nove – só é centro-avante quando o time está sem a bola, e com ela torna-se praticamente um enganche –, não é bem um 4-3-3, e sim um 4-3,5-2,5!!! Se bem que, contra o Santos, o ponta-direita (Fábregas) descia e invertia com o meia-direita (Alves), o ponta-esquerda (Thiago) descia e invertia com o meia-esquerda (Iniesta), Messi invertia com Xavi, e nessas alturas já se esquecia quem era quem neste mundo bicolor.
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Se a “função Busquets” virar tendência, como o falso nove, não haveria lugar no mundo com jogadores que melhor se adaptem às características desse “falso cinco” – ou líbero – do que o Brasil, tão repleto de cabeças-de-área (e de bagre), com volantes que sabem virar o “sobra” como ninguém (e daí só faltaria alguém para ensiná-los a dar passes e comandar a posse de bola de todo o time para poderem ser chamados de líberos).
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3.      Guardiola: entre a retranca fascinante e invencionices revolucionárias
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Pep Guardiola é um professor pardal. Este é o ponto mais importante em se observar taticamente neste Barcelona: suas invenções táticas. O elenco é praticamente o mesmo da época de Frank Rijkaard, que montou uma equipe incrível: bicampeã espanhola, campeã da UEFA Champions League – doravante UCL –, com a estrela do time ganhando seguidamente o título de melhor do mundo, aplausos por todo o planeta.
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Mas logo no primeiro ano no comando da sua equipe, Guardiola ganhou tudo, baseado na sua covardia ativa e na retranca linda e fascinante que montou.
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Sem homens fortes ou grandes defensores para o meio, Guardiola montou a sua defesa com pressão alta sobre a bola, e depois na sua posse absoluta. Todos correm para retomar a bola. Com ela, iniciam trocas de passes incessantes, o chamado tik-taka. Novidade? Nenhuma. Pressão alta sobre a bola e a posse da mesma baseada na troca de passes é o fundamento do futebol do Arsenal de Wenger – que inclusive cunhou o termo que melhor caracteriza essa possa de bola de mais de 60%: “posse estéril”, isto é, tem-se a bola só por tê-la, sem nenhuma outra intenção de criar jogadas ou marcar gols –.
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A posse estéril, portanto, não é uma atitude ofensiva, pelo contrário. É uma forma PRÓ-ATIVA de se defender. O que Arsene e, principalmente, Guardiola se propunham não é recuar e montar barricadas em frente às suas áreas, mas ficar com a bola o máximo de tempo possível, seguindo uma teoria bem simples: se a bola está com você então o seu adversário não está com ela, e, portanto, não pode atacá-lo. É simples assim. Mas só é simples na teoria, na prática nada mais complicado, nem mais complexo.
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Hoje, com apenas três anos da “era-Guardiola”, todos procuram emular estas duas características defensivas do Barça. Uns com melhores (sobretudo aqueles que entendem que a posse estéril é uma característica defensiva), outros com piores resultados. Alguns já até desistiram e tentam uma via alternativa – e só de imaginar uma alternativa para uma opção que nem existia há cinco anos atrás é de assustar –.
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Mas não foram nem Guardiola nem Wenger que inventaram isso. Pressão alta sobre a bola e o controle da sua posse eram o fundamento do Dream Team do Barcelona com Cruyff de técnico e Pep como jogador, e também do grande Milan de Arrigo Sacchi – o último time bicampeão da UCL –.
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O que estes quatro times – e consequentemente os quatro técnicos – têm em comum? Todos se baseiam nos ideais do Ájax e da seleção holandesa da primeira metade da década de 70.
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É da formatação destas equipes holandesas que também vem a segunda invencionice revolucionária de Guardiola: o falso nove. A “função Messi” virou febre, mas nem todos os treinadores conseguiram um jogador capaz de se encaixar nessa função. Guardiola “inventou” essa função para La Pulga a fim de surpreender o grande Sir Alex Fergusson, na final da UCL de 2009, que entrou com Ronaldo de centro-avante, montando-se praticamente num 4-6-0, seu esquema, na época, para “jogos grandes”, muito comum na Inglaterra, enquanto Guardiola botou Messi de centro-avante, recuando para armar, desmontando, assim, todo o desenho defensivo do Manchester United.
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Novamente Pep remontava ao Ájax, à Holanda e ao Barcelona que tinham Cruyff de centro-avante. O 14 fazia justamente a função de falso nove, sem a bola, jogava no alto do campo, com ela poderia vir até a linha de volantes para receber e articular o time.
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Também podemos remontar a décadas antes. A Hungria e o Honved de Puskas, Czibor e Kocsis. Hidegkuti era o falso nove. Puskas e Kocsis, os dois meias do WM (3-2-2-3) húngaro, viravam atacantes; os pontas Czibor e Toth recuavam e viravam meias: inversão vertical, com já dissera, é a base do carrossel holandês – que foi pioneiro, realmente, na pressão sobre a bola e na compactação total do time no menor espaço possível –. O falso nove, por sua vez, remonta a Sindelar do Wunderteam – seleção da Áustria de 1934 –. Inversões de posições que remonta ao Dínamo de Moscow da década de 1940.
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A grande modernidade de Pep Guardiola tem sido de adaptar as grandes revoluções táticas DA EUROPA ao mundo do futebol moderno, cuja preparação física é primordial. E a preparação física do Barcelona é incrível: por ter sido o “primeiro” a propor este tipo de jogo, ele saiu na frente da preparação física adaptada a este fim, e com peças de reposição à altura. Todos os times que tentam se impor contra o Barcelona no seu mesmo jogo, até conseguem se manter no mesmo nível por 30 minutos, um tempo completo, mas depois cansam e acabam por ceder terreno e posse de bola aos blaugrana.
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Por isso também não se pode comparar o futebol barcelonista com o futebol brasileiro “clássico”. Sempre houve a troca de passes no Brasil, mas a escola sulamericana é de investida, do drible, do um-dois. Nossa posse sempre foi objetiva, procuramos espaços para a infiltração, não para matar o tempo do jogo. Tampouco pode-se sonhar em estabelecer um novo Barcelona na seleção argentina só porque eles têm Messi. O toco-e-me-voy platino é futebol sulamericano, toco e vou, toco e vou: quero receber na frente para concluir. O tik-taka é o oposto disso: a bola vai e volta, vai e volta, vai e volta.
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O Barcelona é a apoteose da Escola Danúbia. Escola que, apesar do nome, começou na Escócia, no Queens Park – não o Rangers que hoje joga a Premier League –, mas frutificou com maior força na Hungria, na Áustria e na Rússia – países pós-Danúbio –. A ligação dos culé com essa escola remonta a ANTES da chegada de Cruyff, da época em que parte do time do Honved e da seleção húngara aportou por lá, como Kocsis – a outra parte, como Puskas, foi para o Real Madrid, mas a maioria permaneceu no país –. Ainda podemos ver ecos dessa escola também na Holanda, na França – em pequena parte, mas influenciou fortemente nomes como Arsene Wenger – e na Alemanha – que absorveu a Áustria, o seu time, os seus craques, e a sua maneira de jogar, somando-a a sua eficiência já conhecida, quando Hitler anexou este país ao terceiro Reich –.
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4.       Conclusão
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Um, dois jogos. Tantas revoluções táticas. Não me admirará no início do ano que vem, que tanto Guardiola, quanto Messi recebam os prêmios de melhores do mundo. A dúvida fica de quando este time parará. O Milan de Arrigo Sacchi, o Dream Team de Cruyff, duraram o quê, três, quatro anos?
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A dominação do Ájax e da Bayern na década de 70 durou também uns quatro anos. O Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico, dominaram por uns quatro anos também. Santos de Pelé dominou por em torno de uma década.
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O Barcelona de Guardiola e Messi dominará por quanto mais tempo o cenário mundial?