sábado, 5 de março de 2011

ALGUÉM TEM QUE VENCER

“Alguém tem que ceder” é o título de uma boa comédia cinematográfica. E poderia ser o título de uma boa mudança na história recente do BOTAFOGO DE FUTEBOL E REGATAS. Talvez com uma pequena alteração: “Alguém tem que vencer.” Neste caso, olhando as notícias de “informações vazadas de bastidores”, a luta seria entre Joel Santana e algumas “lideranças do grupo”. Quem? Será alguém que, no penúltimo jogo do BFR no BR-10 pediu para sair de campo por nitidamente não estar jogando – o time tão enfiado atrás que a bola simplesmente não chegava na frente –, alegando que era jogo para outro tipo de atacante. E era mesmo, um atacante que fosse ao meio, buscasse a bola, arrancasse, driblasse três, quatro marcadores e concluísse a gol. Talvez um jogo para Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo, não para um definidor, um monstro da grande área, mas não um virtuose da bola.
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Depois de jogar mal todo um final de brasileirão, uma péssima Taça Guanabara, perder para o River Plate-SE, jogando sempre como o coadjuvante, jogando sempre amedrontado, se apequenando tanto taticamente – reduzindo a sua presença no campo aos primeiros 40 metros de sua defesa – quanto moralmente – retranca contra tudo e contra todos, sempre o pequeno, sempre o ameaçado, sempre o fraco, sempre o acovardado –. E assim seguia em frente o time, joelizado.
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Mas depois de 13 meses, com pelo menos oito de um ótimo trabalho, seguidos por um tempo enorme de contestação – todos percebiam que o time poderia já se soltar, procurar na sua luta a superioridade – culminada na derrota em Sergipe. Ou Joel mudava, ou mudavam Joel. Alguém venceria esta luta, pelo bem ou pelo mal.
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O problema, parece-me, nunca fora Joel, os atletas parecem gostar da sua pessoa, do seu jeito boleiro. Mas os seus métodos não mais funcionavam, sua estratégia não era mais vencedora: funcionou quando todos o subestimavam, subestimavam a garra dos guerreiros alvinegros, quando subestimavam um cara estranho, meio desengonçado, que parecia ser atacante de bolas aéreas – e ele começou a fazer golaços com a bola nos pés, chegando a uma marca de 7 gols em 7 jogos, até o time parar –. Até o time parar funcionou, e parou porque pararam de subestimar, parou porque a estratégia era única e simples – e fácil de ser batida –, parou porque os guerreiros jogavam cada jogo a 120% , e quem quer ser campeão tem que jogar a 70-80%, guardando forças, para nas partidas decisivas, nos clássicos, ter aquele gás a mais para dar 120-130-150%. O BFR não podia mais fazer isso na reta final, pois a gasolina foi queimada no início. É como será a Fórmula 1 este ano, com a volta do KERS, quem usar a energia extra na hora errada será ultrapassado, quem souber usá-la para atacar na hora certa ultrapassará.
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No jogo de volta contra o time sergipano pela Copa do Brasil eu fui incapaz de precisar se o time jogava no 4-2-2-2 ou 4-2-3-1, pois a posição inicial de Caio variava muito. No jogo contra o Volta Redonda neste sábado carnavalesco foi nítido o esquema utilizado pelo Natalino. Depois de passar todos os anos 90 do século passado no 4-4-2 brasileiro (4-2-2-2) tão amado pela torcida, e a década passada toda no 3-5-2 brasileiro (3-4-1-2) tão odiado pela torcida, Joel Natalino Santana finalmente chegou ao século XXI. Novo Milênio, estamos aí. Hoje, quando o adversário estava com a bola, a linha de 3 (Everton (11) pela esquerda, Cajá (10) no meio e Caio (9) pela direita, e diferentemente da maioria dos times que joga com linha de três meias, o BFR joga com meias abertos no “pé certo”, o canhoto na esquerda, e o destro na direita, da mesma forma que Joel armava o seu 4-2-4 quando partia para cima de forma desordenada no segundo tempo do brasileirão-10, com Caio na direita, Herrera e Abreu no meio e Edno na esquerda) ficava extremamente definida, e postada bem próxima para uma boa linha de passe. Com a posse de bola, Caio era o que mais aprofundava – na movimentação que me confundiu no jogo anterio –, o nosso winger (meia-extremo) direito subia com vontade e jogava como um ponta, e graças à ótima atuação do jovem Lucas (2) – para mim o melhor do jogo, seguido, em minha opinião, por Bruno Tiago (7): corretíssimo na defesa, passes primorosos na frente –, as ultrapassagens funcionaram muito bem.
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Infelizmente ainda não vi um time treinado, de movimentação constante, com a aproximação entre as linhas (os dois volantes aproximam dos 3 meias para dar a saída de bola e opção de passe, e estes do avante para não isolá-lo, que volta se aproximando dos meias para abrir a defesa e criar jogadas de gol). Obviamente Herrera não é Loco Abreu, que faz o pivô de forma brilhante e volta bastante, rolando a bola em passes de primeira, do meio para as extremas. Reafirmo categoricamente: JOEL BOTOU O TIME NO ATAQUE COM GENTE, NÃO COM ESTRATÉGIA.
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Mas funcionou. Primeiramente a proximidade dos jogadores da 3º linha propiciou trocas de passes da esquerda para o meio onde se encontrava Caio, o jogador mais à direita, nisto ele puxava a marcação do lateral esquerdo e, numa boa inversão de jogo, deixou Lucas livre para avançar em velocidade por pelo menos 40m, e chegando à linha de fundo, num drible de deixar São Garrincha orgulhoso, entrou na área, obrigando o defensor, vendido, a derrubá-lo. Pênalti claro. Herrera (17) cobra muito forte e mal, o goleiro espalma e a estrela de São Quarentinha põe pra dentro. E praticamente acabou-se a participação do argentino no jogo.
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Novamente a linha de 3 funcionou no lance do segundo gol. Uma das obrigações do 4-5-1 é justamente a troca constante de posições entre os extremos e o armador, além das saídas do centro-avante da área para a criação de vácuos dentro desta, onde se pode ingressar um companheiro. Neste movimento, Herrera na esquerda, Cajá no meio, Caio entrando na área, após batida de lateral e troca de passes entre Lucas e Éverton, e um ótimo cruzamento do canhoto – totalmente entortado pela posição –, Caio sobe só, na marca do penal e cabeceia como manda o manual de Dadá Maravilha: queixo no ombro. Bola no pé da trave e dentro.
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Então vamos aos erros táticos – muitos deles – da equipe alvinegra. O primeiro gol saiu de um lance fortuito – e bem executado – do lateral direito do Voltaço – registro aqui que não sei se o epíteto do time aurinegro, hoje todo de branco, escreve-se Voltasso, como seria de se esperar, ou Voltaço, em homenagem à siderúrgica nacional, CSN, que lá se instala, prefiro a última opção –, que não foi marcado pelo Éverton, passou como quis de um Antônio Carlos (3) meio desligado, e com liberdade chutou forte ao gol e foi defendido por Jéfferson (1) que a esta altura já tivera feito pelo menos mais duas boas defesas. No bate-rebate, ninguém tira, um atacante chuta como dava, Lucas tenta salvar e bota mais para dentro ainda. Primeiro erro: não combatividade de Everton lá na frente permitiu um avanço tão forte do lateral; erro segundo: o que o zagueiro central – que joga pela direita da área – estava fazendo na lateral esquerda?; terceiro erro: onde estava o lateral esquerdo?.
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Estes três erros se repetiram no 2º gol do Voltaço. Após defesa fantástica de um chute de fora da área – Jéfferson não só defende muito, ele defende bonito!!!! –, numa cobrança de escanteio mal rechaçada, o mesmo lateral direito aparece só, tendo toda a área esquerda para pensar, olhar, decidir e cruzar a bola no segundo pau, na cabeça de um zagueiro de 1,95m. Nem São Jéfferson defenderia esta. E é claro, o capita teve todo o direito do mundo de reclamar da sua defesa: QUE BURACO ERA AQUELE NA ESQUERDA????. Foi-se para o intervalo.
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De todas as qualidades Natalinas, a sorte parece ser algo realmente acima da média. Pouco antes do intervalo, um jogador do Volta Redonda teve que dar um tapa no rosto de Antônio Carlos, assim por nada, numa jogada sem qualquer finalidade prática. Resultado: expulsão imediata, certíssima. Como, mais tarde, um outro jogador do aurinegro de branco pisou covardemente na perna de Bruno Tiago, podendo quebrá-la, e não foi expulso. Com um a mais, o BFR que tomava novamente sufoco de um time pequeno, começou a ganhar terreno – e mesmo assim ainda levou o segundo gol!!!! –.
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O jogo reinicia, o time vai pra cima, e repetindo o que fez na primeira etapa – com um gol logo no início do jogo e o segundo antes dos 15” –, “comete” um gol antes dos 2 minutos. Num bom escanteio de Éverton, Rodrigo Mancha (5) sobe mais que a defesa e cabeceia mal, a bola cai – olha a sorte aí – de volta ao seu pé, ele sem olhar para onde, bate para onde apontava o nariz, meio que de bico, meio que de peito de pé, e não é que a bola entra. Melhor.
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E com um a menos, o Voltaço vai para cima, tentando novamente o empate, Jéfferson defende uma à queima roupa, e no rebote, o 18 do Volta Redonda cabeceia, sozinho, com o goleiro no chão e sem marcação, para fora. Perdeu gol incrível. Melhor.
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Por fim, novamente o simples posicionamento dos jogadores, mesmo sem uma estratégia formada e treinada – o que mostra como apenas uma escolha de jogadores certos no esquema certo já é um grande auxílio para a vitória –, e sua movimentação mostraram-se fortemente efetivos. Com o recuo do extremo-direito em direção à Bruno Tiago – jogando perfeitamente como volante-armador, posição que os ingleses chamam de box-to-box (Gerrard, Lampard), os italianos de regista (Pirlo) e os argentinos de carillero (Cambiasso) –, abrindo um buraco enorme entre os zagueiros e o lateral esquerdo, e com uma ultrapassagem precisa de Lucas no canto direito, o 7 mete uma bola precisa no vácuo, o 2 tem todo o tempo do mundo – e toda a área esquerda onde o Volta Redonda fez e desfez na defesa alvinegra – para matar a bola, levantar a cabeça, ler o jogo e rolar uma bola que gritava: “FAZ, FAZ, FAZ!!!”, para que o jovem Alex desencantasse como profissional.
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Bem na defesa, velocidade no apoio, uma assistência, um pênalti cavado, renovação nas esperanças do botafoguense que o “Presidente” comande do bureau, não dentro do campo, Lucas ótimo. Bruno Tiago também está mandando no meio. Fica a briga pela posição de volante de contenção. A lateral esquerda está muito mal, Márcio Azevedo (6) tem velocidade, é driblador – embora sempre tente o mesmo golpe: o drible da vaga, ou meia-lua –, que dá certo quando ele se aproxima, mas tão nervoso como está, tão afoito quanto anda, está dando o golpe de muito longe, permitindo que o adversário tome a frente. Mas o cruzamento não sai um certo, e defensivamente está apagado, só lembrar que os dois gols saíram do lado dele.
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Aparentemente, para quem vê de fora, as conversas que a diretoria teve com jogadores em separado, com Joel Santana em reservado, e um certo almoço de três horas entre um certo centro-avante que não jogou por estar machucado e o gerente de futebol deram certo. Quem cedeu – e quanto cedeu – não sei e não me importo. Posso afirmar, no entanto, que sei quem venceu: não foi o Papai, o General, nem foram as “lideranças do grupo”. Quem venceu foi o BOTAFOGO DE FUTEBOL E REGATAS. Nisto eu tenho certeza, tanto quanto boto fé em São Didi!!!
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O BFR ganhou hoje PORQUE FEZ MAIS GOLS, QUEM NÃO LEVA SÓ EMPATA. 7 VITÓRIAS, NO FUTEBOL, VALEM MAIS QUE 20 EMPATES.
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Default do BFR até as mudanças de Joel, onde Márcio Rosário (4):
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G------------------1-------------------
D----------3------------4---------------
D-2-----------------------------------6-
M------------7---------5----------------
M----9-----------10---------11--------
A------------------17-------------------