domingo, 13 de março de 2011

Resgate tático de Joel Santana pode ser boa solução para o Botafogo

texto de André Rocha do Olho Tático

fonte:

http://globoesporte.globo.com/platb/olhotatico/2011/03/13/resgate-tatico-de-joel-santana-pode-ser-boa-solucao-para-o-botafogo



Resgate tático de Joel Santana pode ser boa solução para o Botafogo


Joel Santana comandou cinco equipes campeãs regionais nos anos 1990, sendo seis títulos consecutivos. No Vasco (1992/93), Bahia (1994/99), Fluminense (1995), Flamengo (1996) e Botafogo (1997), utilizou prioritariamente o esquema 4-2-2-2, básico e muito difundido à época.

Na década seguinte, a partir das conquistas da Copa Mercosul e da Taça João Havelange em 2000 com o Vasco, tendo assumido a equipe na reta final, o treinador começou a alternar seu sistema preferido com o 3-4-1-2. No time cruzmaltino, Joel resgatou uma solução de Antônio Lopes em 1997 pouco utilizada por Oswaldo de Oliveira: Nasa como volante-zagueiro liberando os laterais Clébson e Jorginho Paulista como alas.

Mesmo recurso utilizado no Flamengo 2007, primeiro trabalho bem sucedido do técnico após o bicampeonato baiano com o Vitória em 2002/2003. Rômulo, depois Jaílton, foi o escolhido para sair do meio e compor um trio de zaga para dar segurança a Fábio Luciano e liberdade a Léo Moura e Juan. Assim levou o time rubro-negro da zona de rebaixamento à vaga na Libertadores e emendou com a conquista do Estadual no ano seguinte.

No comando da África do Sul, voltou ao 4-2-2-2, até porque seu antecessor foi Carlos Alberto Parreira, adepto fiel do sistema. Depois seguiu a tendência mundial e arriscou o 4-2-3-1. Pediu aos dirigentes adversários fortes nos amistosos do país-sede da Copa 2010, não conseguiu os resultados e foi demitido.

Retornou ao Brasil e, no Botafogo dilacerado pela goleada de 6 a 0 para o Vasco na terceira rodada da Taça Guanabara, voltou ao 3-4-1-2 para arrumar a casa. Fahel foi o volante-zagueiro, Alessandro e Marcelo Cordeiro os alas “espetados” (à frente dos volantes) e Lúcio Flávio o homem da ligação no meio-campo articulando para Herrera e Loco Abreu.

Assim ganhou os dois turnos do campeonato carioca e manteve a estrutura na campanha do Brasileirão que foi além das expectativas do início da competição, mas não deixou de decepcionar a torcida que sonhou com a vaga na Taça Libertadores ao longo das 38 rodadas.

O botafoguense esperava também um time mais ousado, ainda que apenas nas partidas menos complicadas. Mas Joel manteve a estrutura tática e a estratégia que marcou sua carreira: primeiro tempo cauteloso, estudando o adversário. No intervalo, de posse das anotações em sua lendária prancheta, arruma o time e, ao longo da segunda etapa, faz as substituições avançando ou recuando ainda mais suas linhas de acordo com a necessidade.

Em 2011, mesmo com reforços que sugeriam uma formação mais ofensiva, Joel se manteve firme em suas convicções e chegou a ter desavenças ideológicas públicas com Loco Abreu, líder e ídolo do Bota. Nada grave ou que causasse um racha no elenco, mas que deixou claro que havia uma oposição de ideias.

Com a derrota nos pênaltis para o Flamengo na semifinal da Taça Guanabara com a equipe muito cautelosa e mais preocupada em anular as estrelas adversárias do que jogar, Joel Santana, enfim, percebeu que era necessário mudar.

E já na sofrida classificação na Copa do Brasil contra o River Plate, o de Sergipe, o treinador começou a resgatar um desenho tático que podia ter lhe dado seu primeiro título estadual há 24 anos.

Em 1987, Joel Santana comandava um Vasco de boa base, com ótimos reforços, mas abalado pelos quatro anos sem títulos e o vice-campeonato estadual do ano anterior. Montou um timaço, o melhor cruzmaltino que este que escreve viu ao vivo. E, assim como faria em 2000, foi influenciado por uma ideia de Antonio Lopes implementada em 1985: usar Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do Vasco, mas já veterano, como uma espécie de “falso nove”, praticamente um meia de ligação alimentando os velocíssimos Mauricinho e Romário, que varriam as defesas com arrancadas em diagonal.

Em números, um 4-3-1-2 que venceu a Taça Guanabara com oito vitórias, quatro empates e apenas uma derrota. 24 gols a favor e seis contra. Um time técnico, que só contava com Dunga (sim, ele mesmo) como marcador no meio-campo. Mas que vencia jogando, até contra os pequenos, nos contra-ataques. Mesmo no inicio da carreira, Joel Santana já era cauteloso e estrategista. Tanto que preferiu se deixar seduzir pela proposta irrecusável do Al-Hilal e voltou para os Emirados Árabes (comandara o Al Wasl de 1981 a 86), deixando o Vasco sob o comando de Sebastião Lazaroni e perdendo a chance de ser campeão regional.


http://globoesporte.globo.com/platb/files/1019/2011/03/campinho_Vasco_1987.jpg



O Vasco campeão da Taça GB 1987: um 4-3-1-2 com Roberto Dinamite como uma espécie de 'falso nove', trabalhando com o meio-campo sustendado por Dunga e lançando os ligeiros Mauricinho e Romário em diagonal.


No Botafogo 2011, o resgate do sistema com losango no meio-campo não tem o “falso nove”. Everton herdou a vaga de Renato Cajá e faz a ligação com o “ataque mercosul” imprimindo velocidade e procurando os flancos, especialmente o esquerdo. Completando o setor, Rodrigo Mancha, Bruno Tiago e Arévalo Rios, três volantes de ofício que auxiliam Lucas e Márcio Azevedo, ótimos no apoio, fragílimos na marcação. Alas posicionados como laterais que expõem João Filipe e Márcio Rosário, a dupla de zaga, e fizeram o time levar alguns sustos nos 4 a 2 sobre o Volta Redonda e sofrer bastante para administrar o 1 a 0 sobre o Nova Iguaçu.

Nos 4 a 0 sobre o Americano no Engenhão, porém, o Botafogo teve sua performance mais consistente com o novo esquema. Curiosamente, o meio-campo teve melhor encaixe com a entrada de Somália na vaga do suspenso Bruno Tiago, um meia adaptado de bom passe e chegada à frente. Com volantes mais marcadores, os laterais tiveram ainda mais segurança para apoiar. Na frente, Everton ganha entrosamento com Herrera e Abreu e o ataque velocidade e presença de área. Alterna jogadas com bola no chão e os habituais cruzamentos procurando o gigante uruguaio.

Ainda que a goleada tenha sido construída com um pênalti absurdo em Abreu que os próprios jogadores demoraram a entender e o árbitro Leonardo Cavaleiro a assinalar com convicção, a atuação foi segura e, pela primeira vez na temporada, deixou treinador e também os jogadores satisfeitos. Os tentos de Herrera (dois, o primeiro no penal inexistente), Abreu e João Filipe saíram naturalmente, frutos de um volume de jogo que os alvinegros há tempos não viam sua equipe desenvolver.


http://globoesporte.globo.com/platb/files/1019/2011/03/campinho_Botafogo_4312_TacaRio2011.jpg


No losango alvinegro, o trio de volantes sustenta os ofensivos laterais Lucas e Márcio Azevedo e libera Everton para encostar em Herrera e Abreu.

É cedo para assegurar uma transformação, mas o novo sistema e, principalmente, a remodelada proposta de jogo alvinegra já servem como alento e bons motivos para acreditar em dias de futebol mais solto e fluido.

Joel Santana continua o mesmo, mas sua trajetória profissional mostra que o treinador sabe se reciclar e assimilar novas ideias quando acha necessário. A mudança veio em boa hora.