quarta-feira, 25 de maio de 2011

PRÉVIA DA FINAL DA UEFA CHAMPIONS LEAGUE 28-05-2011: UMA MISSÃO "MESSIÂNICA"?

Navegando na net, deparei-me com o texto recém-escrito pelo jornalista Jonathan Wilson, um dos papas da análise tática mundial, autor do livro Inverting the Piramid -- que se alguém souber como achar me avisa, pois estou louco para comprar -- sobre a final da Uefa Champions League neste próximo sábado. A partir do escrito dele, e do que andei debatendo informalmente esta semana, publico aqui o meu texto. 
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P.S.: O texto sobre o 4-6-0 que havia prometido está pronto, mas ficará para depois visto que esta semana já há o jogo -- e o texto do Jonathan, que partes transcrevo abaixo, também dá subsídios ao que penso. Abraços, quem puder dá um comentário!
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The basic rule is that you need as many players at the back as the opponent has forwards, plus one. Roughly speaking, Barca plays a 4-3-3, so that would suggest a back four. Except that Lionel Messi, the central player of the three, is a false nine, dropping off toward midfield, leaving space into which David Villa and Pedro can break from wide. That is a conundrum with which defenses have struggled all season; nature may abhor a vacuum, but center backs abhor them even more. What should they do? Follow the forward and risk opening gaps, or leave him alone to -- hopefully -- be picked up by the holding midfielders, who themselves have Xavi and Iniesta to look after?
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“A regra básica é que você precisa da mesma quantidade atrás tanto quanto o oponente tem avante, mais um. Falando grosseiramente, barça joga um 4-3-3, então isto sugeriria quatro atrás. Exceto que Lionel Messi, o jogador central dos três, é um falso nove, descendo em direção ao meio-campo, deixando espaço no qual David Villa e Pedro podem penetrar das extremidades. Eis o problema com o qual defesas tiveram trabalho toda a temporada; natureza deve abominar o vácuo, mas zagueiros abomina-os ainda mais. O que eles deveriam fazer? Seguir o avante e arriscar abrir buracos, ou deixá-lo só para – esperançosamente – ser pegos pelos volantes, que eles mesmos têm Xavi e Iniesta para observar”?
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Well, maybe the answer is to do neither. If Barca plays without an orthodox central striker, perhaps the answer against them is to play without an orthodox center back -- or rather, to play with only one, the "plus one," and to track Messi with either a designated man-marker or an additional holding midfielder. That would then leave a back three, but unlike the familiar back three, it would consist not of three central defenders, but of a center back and two fullbacks (who would, admittedly, have to play slightly tucked in to match the angles on which Villa and Pedro attack).
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“Bem, talvez a resposta é fazer nenhum dos dois. Se Barça joga sem um centro-avante ortodoxo, talvez a resposta contra eles é jogar sem um zagueiro ortodoxo – ou ainda, jogar com apenas um, e ‘mais um’, e perseguir Messi com tanto um marcador individual designado ou um volante adicional. Isto os deixaria com três atrás, mas diferente do três atrás familiar, ela não consistiria de três zagueiros, mas dum zagueiro e dois laterais (quem teria, admitidamente, que jogar levemente fechados para igualar os ângulos no qual Villa e Pedro atacam)”.
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There would then be three holding midfielders (or perhaps two holders plus a man-marker) to handle Messi, Xavi and Iniesta). So, three defenders, three holding players -- that leaves four. Against Barcelona, with its attacking fullbacks, wide men are essential, and given Sergio Busquets is the metronome who sets Barca's rhythm, the ideal would be an attacking midfield-cum-second striker to sit on him. That leaves one remaining player, ideally a rapid center forward to disrupt Barca's back four with his movement and look to use his pace to get behind them, perhaps making them wary about playing a full press.
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“Haveria então três volantes (ou talvez dois volantes mais um marcador individual) para lidar com Messi, Xavi e Iniesta. Então, três zagueiros, três volantes – restam quatro. Contra Barcelona, com seus laterais atacantes, homens abertos são essenciais, e já que Sergio Busquets é o metrônimo que acerta o ritmo do Barça, o ideal seria um ponta-de-lança (meia-vira-segundo atacante) sentado (na falta de melhor termo para traduzir) nele. O que deixa um jogador sobrando, o ideal seria um rápido centro-avante para romper os quatro atrás do Barça com seus movimentos e usa sua velocidade para cair atrás deles, talvez fazendo-os se preocupar sobre jogar sua uma pressão total”.
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So, if you had a limitless pool of players from which to draw, a 3-3-3-1, with the middle three narrower than the other two threes, would seem the ideal. (…)
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“Então, se você tem um ilimitado número de jogadores com o qual desenhar, um 3-3-3-1, com os três do meio mais fechados que os outros dois três, seria o ideal”. (...)
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Park Ji-sung will surely be used on the left to try to check the runs of Dani Alves. It's commonly said that the space behind Alves is a potential weakness for Barca, yet nobody has really yet been able to exploit it; the best option may simply be to try to track his runs, and Park, as almost a specialist defensive forward, is probably as equipped as anybody to do so.
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“Park Ji-sung será certamente usado na esquerda para tentar conter as corridas de Dani Alves. É comumente dito que o espaço atrás de Alves é uma fraqueza potencial do Barca, embora ninguém tenha realmente ainda sido capaz de explorá-lo; a melhor opção pode simplesmente ser tentar seguir suas corridas, e Park, como quase um avante defensivo especialista, é provavelmente tão equipado para isso como ninguém para faze-lo”.
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Coincidência das coincidências não foi o grande mestre Jonathan Wilson imaginar um time anti-Barça igual ao que eu desenharia, mas, um dia antes dele publicar seu texto, um aluno meu me perguntar justamente o que eu faria contra o grande Barcelona, o melhor time que eu já vi em campo.
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Minha resposta foi quase idêntica, partindo de um 4-3-3 com pontas defendendo bem forte, ou um 4-2-3-1 com extremos com bastante ímpeto ofensivo. Mas o ponto crucial é a linha de trás – justamente o elemento ao qual Wilson dedica mais tempo na análise que transpus e traduzi –. O “grande truque” do falso nove é que saindo da posição de centro-avante para fazer o enganche acarretaria uma duplicidade na marcação: é o volante ou o zagueiro quem vai pegá-lo. A resposta de Wilson é soberba: nenhum.
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Neste momento, como gosto de dar exemplos – ê cabeça de professor! –, dei o exemplo ao meu aluno da Itália campeã do mundo em 1982, na qual Gentile anulou nada mais nada menos que Maradona e Zico, que foram presos e perseguidos na marcação individual italiana. O adversário do Barcelona tem que possuir esta qualidade: poder ter alguém para liberar na perseguição individual à Messi.
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Mas quem, no elenco do Manchester faria esta função? Obviamente ninguém seria tolo de desfazer a melhor dupla de zaga do mundo: Ferdinand + Vidic. Entre os dois, por achar que Vidic está em melhor temporada este ano, e ser absoluto em cima, deixaria ele na área, fazendo a sobra, e deixaria para Ferdinand -- que tem até mesmo o costume de subir mais, quase como um líbero -- a função de pacman de Messi.
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As outras alternativas às vezes funcionam, mas nem sempre. Quais são as outras alternativas para barrar a flutuação “messiânica”? A mais utilizada é o 4-1-4-1 – como o utilizado pelo Arsenal –. O problema 1: se as duas linhas não compactarem, não vão coibir o avanço de Xavi e Iniesta, é aí onde a maioria dos times caem diante do fluxo e do ritmo de passes do Barça. O problema 2: a falta de uma defesa de exceção. Esta foi a maior razão da queda do Arsenal diante dos culé no Camp Nou. Um momento, uma falta de concentração – como a brincadeira de Fábregas dando de calcanhar a dois metros da grande área – e o resultado é Messi entrando e marcando um golaço.
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A segunda opção é a utilizada por José Mourinho no Real Madrid, trocando um atacante por um volante, e o triângulo de trás bateria de frente diretamente com o triângulo formado por Xavi, Iniesta e Messi. O problema 1: liberdade para Busquets dar o ritmo ao time, passar para os laterais, ou avançar até conseguir encontrar um dos três meias – considerando Messi, neste caso de meia – soltos e passar para eles. O problema 2: quando Messi está adiantado como centro-avante, o volante extra torna-se inútil, e nada impede que o argentino faça gols de 9 dentro da área, como o primeiro contra o Real no jogo de volta das semi-finais da Liga dos Campeões (UCL) 2010-11, no cruzamento de Affelay.
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Mas, para mim, o mais importante foi um ponto que devo discordar de Jonathan Wilson, quando afirma que o ponto fraco do Barça é a grande ofensividade de Daniel Alves – o qual concordo, além de outros pontos –, porém discordo quando Wilson afirma que este “defeito” nunca foi explorado apropriadamente.
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Há três estudos de caso: 1. Primeiro gol da virada do Arsenal no Emirates nesta UCL, uma roubada de bola de Clichy, e Van Persie na esquerda arremata ao gol – Valdés aceita –. 2. Gol do título de Cristiano Ronaldo da Copa do Rei. Marcelo e Di Maria fazem um-dois em cima de Daniel e cruzamento perfeito de Angel para cabeçada soberba de Ronaldo. 3. Novamente Di Maria, segundo jogo da semi-final da UCL, num primeiro momento, pedalando sobre Daniel e chutando de forma perigosíssima, noutro lance, Angel faz grande jogada, chuta, a bola vai na trave e volta, Di Maria mata-a fenomenalmente e toca no meio para Marcelo completar.
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O que me leva à conclusão: Enquanto Angel Di Maria foi “obediente” e conteve-se em conter Daniel Alves foi um atleta apagado pelo protagonismo do brasileiro, mas quando foi para cima, jogando no bico da área do Barcelona, foi o mais perigoso jogador que os bleugrana enfrentaram – sobretudo se comparado ao jogador nulo e inexistente da goledada histórica de 5 x 0 no Camp Nou –!
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Curiosamente, a solução que eu pensei no ato pro meu aluno, corresponde mais ou menos ao que a Alemanha de 1954 utilizou para vencer a Hungria na final da Copa da Suíça – ignorando-se todas as teorias de conspiração existente sobre aquela final e o gol roubado que os magiares fizeram no fim e foi muito mal anulado –. Um perseguidor individual, Horst Eckel, para o maestro e falso nove – o primeiro da linhagem, pelo menos em nível mundial – Hidegkuti, afim de anular a sua movimentação, somada a uma força ofensiva incomum vinda dos contra-ataques do ponta-direita Helmut Han. Esta coincidência – que não tem nada de coincidência, mas do inconsciente remontando o presente com o conhecimento prévio – que só vim notar quando pesquisava para este texto, talvez seja o estudo de caso ideal contra o Barcelona, mesmo os sessenta anos separando os dois times e as mudanças inerentes ao futebol e aos sistemas de jogo – o Barça joga no 4-3-3 a Hungria numa variação do WM (3-2-2-3), chamada MM (3-2-3-2) –.
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Do mais deve concordar comWilson: Sir Alex Fergusson não deve desmonntar seu 4-4-1-1. Park sobre Alves, Valência sobre o lateral esquerdo que atuar, Ronney impedindo a saída de bola através de Busquets. Para mim isso é essencial, o tridente de meias impedindo a saída do tridente da 2º linha do Barcelona – um movimento já percebido por todos os analistas, como Jonathan Wilson, o time de Guardiola avança e ataca numa espécie de 2-3-2-3, o WW campeão do mundo com a Itália em 1934 e 1938 –, responsável pela transição e pelo desafogo de trás, além de sua movimentação ser a responsável pela liberdade dos homens de frente dos blaugrana – isto é, quando Alves avança, alguém tem que vir marca-lo, deixando livre ou Xavi ou Pedro, da mesma forma na esquerda, liberando ou Villa ou Iniesta, ou Busquets pelo meio liberando um dos dois meias –. A uestão é impedi-los, impedir que façam um bom passe, que se projetem, que quebrem o sistema de marcação, sobretudo, impedir que fiquem trocando passes laterais “sem importância”, aumentando a posse de bola do seu time, e o mais importante disso, impedindo que o adversário tenha a bola para atacar.
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Mas o ponto mais importante seria a lateral esquerda do Barcelona. Nenhum dos três laterais dos culé está em condições cem por cento de jogo, por isso a velocidade de Valência – que além de ser maior de que a de Nani, não veio de uma lesão como o português que vem de uma fratura –. Quando eu critiquei Wenger por abdicar do contra-ataque, ou mesmo da covardia em não utilizar os melhores wingers que tinha, também tinha que relevar o fato de Walcott, que não é tecnicamente o melhor, mas é o mais rápido, não estar em suas condições totais de jogo – mas se Fábregas e Van Persie jogaram fora dos 100%, porque não o velocista inglês dono da 14 que foi de Thierry Henry?
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Toda forma, jogão. Se o Manchester United não tem a qualidade refinada de toque de bola e posse como o Arsenal e o Barcelona, sobra-lhe um algo mais que os catalães têm e falta aos londrinos há alguns anos: eficiência. Ou como se diz muito no Brasil: “chegada”. O Arsenal de hoje é um time sem chegada, derrapa muito em suas próprias pernas, o United não, é time pronto, que mescla muito mais e melhor talento com experiência – por exemplo, falta um Giggs no Arsenal, não em termos de qualidade, os Gunners têm até jogadores melhores, mas ainda assim não com a presença de um Giggs –, e é um time pronto para vencer, a mesma base que ganhou um Champions e perdeu outra para o Barça.
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Em condições reais, daria 7 por 3 as chances do Barca – e isso porque é o Manchester United, o grande e poderoso time de Fergusson –. Por ser jogo único, e tudo pode acontecer, um 6 a 4. Por ser em Londres, bem, isso deve deixar 50% pra cada um.
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Mas o Barcelona tem Messi. E o fator “messiânico” pode fazer diferença. 55% pro Barca, 45% pros Red Devils.
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Sem arrudeios: 2 x 1, na prorrogação. Pra quem? Veja pelos gols: Iniesta, Hernandez, Messi – driblando 3, penetrando na área e encerrando a carreira de Van der Sar com uma cavadinha, depois dos 10 minutos do primeiro tempo da prorrogação!
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P.S.2: Jonathan Wilson publica outro texto no exato momento que eu publico este, o texto -- para o público britânico, diferentemente do escrito para o público norte-americano -- é mais profundo, no entanto os preceitos táticos-técnicos são o mesmo, os parágrafos são até praticamente idênticos, quem quiser acompanhar -- com mais uma lição de história futebolística de Wilson-Sensei -- é só ler aqui.