quinta-feira, 17 de novembro de 2011

JAGUNÇO X JAGUNÇO - 4ª parte


Mas qual a essência do ser
Jagunço? Assim, cangaceiro?
Igual todo homem-mulher
Que se vende por dinheiro?

Ou pior: de quem a vida
Vive sem saber escravo,
Que se acha livre e em saída
Co'a mão presa pelo Cravo?

Viver capanga não é
Dar a vida por quem se ama,
Mas dá-la, sem dar por fé,
A quem vida lha derrama.

Viver jagunço é fazer
Sofrer povo seu igual.
Muita gente o é sem saber
Jagunço ao fazer tal qual.

Viver cangaceiro, então?
Brigando co'as volantes
(Sem saber matando o irmão),
Jagunços dos governantes.

O jagunço não se sabe,
Jagunço apenas o seja
E assim um co'outro se acabe
Até que não mais se veja

Homem valente nesta terra.
Aqui últimos vão morrer
Na crueza desta guerra
Por vingança e por poder.

Não lhes digo que acabou
O capanga ou cangaceiro,
Mas apenas terminou
O bom tempo do guerreiro,

Enquanto houver coronel
E o tal partido político,
Terá jagunço ao milhel
Como se fora ser mí(s)tico,

Que ninguém crê existir,
Mas conta as suas estórias,
Muito mais pra divertir,
Do que acender as memórias.

Foi quando, olhe, Zé Tonto
Ficou desmuniciado,
Pra morrer ficou já pronto,
Saltou de facão armado.

Vendo seu imigo assim
Ao fogo desprotegido:
“Deixa que esse é pra mim!”
->Ao duelo prometido!<-

O rifle cedeu ao mandado
De Tõe da Vaca, co'inveja
O fogo ficou calado
Pra ver a bela peleja.

Foi lá, na risca da faca,
Co'a poeira alevantada,
Que Zé Tonto e Tõe da Vaca
Se embolaram na matada.

Foi por que mesmo, meu Deus?
Ofensa de mãe? -> Perdão
Não se dá! <- Ou de um os seus
Bois no outro teve o ladrão?

2 de lâmina na mão
Compridas feita uma espada
Batiam ferro em questão
A turba toda animada.

Corpo gira e a poeira
Sobe a poeira e regira
Corpo sobe corpo gira
E sobe e gira a poeira.

_Home, não posso morrer!,
Tenho o corpo já fechado!,
Vai a mim me proteger
Meu capeta engarrafado!!!

_E eu tenho uma Djaba feme!
O olho de Tõe arregalado,
Seu corpo todo que treme,
Por Tonto foi degolado.

Sangue do Céu não chovia,
Mas o chão ficou banhado,
E som, grito não se ouvia:
Povo todo arrebanhado.

A terra se chupou o suco
Humano e o levou pro rio
E o povo nem fez luto
Pro corpo que ficou frio.

E chegou ao São Francisco,
O sangue de muita gente.
Mas é Santo o São Francisco
Que tem Mundos pela frente.