segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

DAS PRINCESAS DOS CONTOS

ESTE TEXTO É UMA EDIÇÃO DE OUTRO TEXTO QUE ESCREVI EM 10/08/2012, EM RESPOSTA A ALTA QUANTIDADE DE ASNEIRAS QUE FOI COMENTADO NO PROGRAMA GLOBAL "Na Moral", SOBRE AS PRINCESAS DE CONTOS DE FADAS (OU MARAVILHOSOS). EXCLUI AS REFERÊNCIAS ÁSPERAS SOBRE O PROGRAMA  E ACRESCENTEI ELEMENTOS PARA AUMENTAR A COERÊNCIA DO TEXTO QUE ORA AQUI PUBLICO:


A princesa do conto de fadas (ou conto maravilhoso) não é uma donzelinha frágil que precise de ajuda, nem o príncipe um cara que só chega quando não se precisa mais dele. Pelo contrário, são arquétipos que precisam ser absorvidos como são, não como figuras com personalidade individual bem definida. As suas radicalidades humanas está em parecer com todos, não em sua extrema alteridade.


Apregoar valores modernos aos contos maravilhosos é desvirtuá-los. A leitura deveria ser a oposta: quais valores lá ainda são nossos contemporâneos (quase todos)? A princesa, na verdade, simboliza o rito de iniciação da mulher, isto é, ela menstrua e está pronta para o ato sexual. A busca que ela enfrenta são, neste sentido, os desafios necessários para amadurecer: ela não é mais criança, e está se tornando mulher. E como membro de uma determinada classe social deve constituir família.


Por outro lado a princesa está quase sempre ou em apuros ou em fuga, o que simboliza o seu desejo por encontrar o Amor - O Encantado -. Essa busca, inerente a todos nós, é o que torna o conto universal. Por isso todo conto maravilhoso acaba com um casamento e um FORAM FELIZES PARA SEMPRE.


Alguns, que provavelmente nunca amaram de verdade, querem fazer crer que isto está desvirtuado no tempo e não faz mais sentido hoje em dia. Ora, O casamento não é Um casamento. Assim como no mundo real, o casamento é (ou deveria ser) o AUGE da vida do indivíduo, isto é, em tese o indivíduo não poderia ser mais feliz outro dia da sua vida do que no dia do seu casamento.


Explica-se: o casamento é o ÚNICO momento da vida no qual os mais íntimos desejos subjetivos (aqui representado na figura máxima do Amor Verdadeiro), aquilo que o INDIVÍDUO quer para si, estão completamente sincronizados com aquilo que a SOCIEDADE exige do seu lugar social, aqui na forma de um contrato social, que é o casamento, feito perante uma determinada comunidade que lhe servirá tanto de TESTEMUNHA (do contrato) quanto de AUDIÊNCIA (da felicidade). 


Lembrando que no Novo Testamento o casamento é uma das poucas festas que Cristo toma parte (a outra é a Páscoa). Isto é, o rito social na forma do casamento, é a sacralização do desejo individual de amar.


Por outro lado, durante todo o resto de sua vida, inclusive durante o próprio casamento, as necessidades, desejos e anseios do indivíduo estão em eterno conflito com as necessidades, desejos e anseios da sociedade. O indivíduo busca sempre a realização pessoal, a sociedade, coercitiva, quer que aja de acordo com um conjunto de regras pré-determinadas (daí a princesa que foge, ou a princesa que está trancafiada).


FELIZES PARA SEMPRE: não quer dizer que todos os leitores serão (infelizmente) felizes no casamento, muito menos que aquela princesa da estória que acaba com esta célebre frase também será. Ela quer dizer que a partir daquele momento a moça - que deixou de ser menina e agora é mulher - está APTA a gozar de toda a felicidade que possa ter, inclusive a sexual.


Devemos lembrar, por fim, que na época que essas estórias começaram a ser contadas, a infância, que é um conceito do Romantismo, nem existia, o conceito de adolescência é ainda mais jovem. Portanto, a menstruação e o nascimento dos pelos pubianos marcava, visivelmente, esta passagem.


Por estes elementos comentados, obrigar que um conto maravilhoso contenha valores modernos é UM SACRILÉGIO, negar-lhe a verdade inerente e imanente é UMA HERESIA.